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    <title>O Homem Sincero</title>
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    <description>O Homem Sincero</description>
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      <title>Balzáqueas 6&quot;Receber olhares cheios de admiração, desejo e curiosidade é como uma flor que todas as ...</title>
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      <pubDate>Wed, 27 Aug 2008 11:06:15 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Balzáqueas 6&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&quot;Receber olhares cheios de admiração, desejo e curiosidade é como uma flor que todas as mulheres aspiram deliciadas. Algumas mulheres cumpridoras de seus deveres, lindas e virtuosas, voltam para a casa de mal-humor quando não colhem um ramalhete de galanteios durante um passeio.&quot;&lt;br/&gt;Balzac</description>
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      <title>Bálzaqueas  5“O homem dominado pela mulher é, com justiça, coberto pelo ridículo. A influência da mu...</title>
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      <pubDate>Wed, 20 Aug 2008 18:04:42 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Bálzaqueas  5&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“O homem dominado pela mulher é, com justiça, coberto pelo ridículo. A influência da mulher deve ser absolutamente secreta. Em tudo, a graça nas mulheres está no mistério.”&lt;br/&gt;Balzac&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Obrigado, ZéPedido de mãe não é coisa que se ignore. Minha mãe pediu que eu escrevesse um artigo sob...</title>
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      <pubDate>Tue, 19 Aug 2008 20:02:56 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Obrigado, Zé&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pedido de mãe não é coisa que se ignore. Minha mãe pediu que eu escrevesse um artigo sobre amizade. Já falei sobre minha mãe. Seu único fracasso foi não transmitir a mim seu português impecável. (Se não falei, deveria ter falado.) Minha mãe, sempre que eu pedia um copão de Nescau, me corrigia: “Copão não, Fabinho. Copázio”. Tomei (e tomo) muito Nescau na vida, em copos às vezes enormes, mas jamais consegui pedir um copázio. &lt;br/&gt;Bem, trato então de atender ao pedido de minha mãe. Vou escrever sobre amizade. Como definir? Me ocorre uma frase de Santo Agostinho que me foi mostrada uma vez por tio Fábio, um falecido homem sábio do interior. Deus o tenha.  Alguém solicitara de Agostinho uma definição sobre o tempo. Quando não pensava nele, Agostinho sabia o que era. Quando pensava, não conseguia defini-lo. Amizade é mais ou menos como o tempo. Sabemos o que é no dia-a-dia, mas, quando paramos para encontrar uma definição, faltam palavras. &lt;br/&gt;O que levou minha mãe a me fazer o pedido foi uma cena de amizade que ela testemunhou. Num momento particularmente difícil para seu filho Fabinho,  a aparição sorridente e exuberante de um amigo teve o efeito iluminador, quase redentor, de uma chama que traz luz e calor a um quarto escuro e frio. O nome desse amigo é José. Zé. Simplesmente Zé. (Adoro a simplicidade sonora de Zé.)&lt;br/&gt;Eu estava me preparando para ir para o hospital. Seria operado no dia seguinte. Um problema que parecera banal se revelara, com rapidez avassaladora, sério e ameaçador. Num dia eu estava jogando uma partida de tênis de quase 2 horas. No outro, me confrontava com a iminência de uma cirurgia complicada. Subitamente contemplei a própria mortalidade. Gostaria de dizer que me comportei de forma heróica e estóica, mas estaria ludibriando a mim mesmo e a quem me lê. A verdade é que senti muito medo. Jamais, até ali,tivera projetos de morrer antes dos 90 anos. &lt;br/&gt;Minha família estava toda reunida na tarde em que eu iria para o hospital. Eu já tinha chamado o elevador quando avisaram, pelo interfone, que o Zé  chegara. O Zé passara, dois anos antes, por uma situação idêntica à minha. Lembro que fui a terceira pessoa a quem ele contou seu problema. Primeiro, falou para a mãe. Depois, para a namorada. Depois, para mim.&lt;br/&gt;Ver, momentos antes de partir para o hospital, o Zé tão bem, tão pleno de vida, tão cheio de planos, foi indescritivelmente animador para mim. E mais ainda para minha mãe, tão hábil em disfarçar sua apreensão em relação a seu Fabinho. Conversamos rapidamente, porque eu já estava atrasado. Mas daquela breve conversa surgiu um modelo, uma referência, uma motivação para mim. Dali por diante, quando um fantasma me as-sombrava, a imagem vivaz do meu amigo Zé era a resposta.&lt;br/&gt;Dias depois, já operado, minha mãe disse que jamais vira uma demonstra-ção tão bela de amizade. E me pediu que um dia escrevesse sobre isso.  Quando o Zé foi me visitar no hospital, reproduzi para ele as palavras de minha mãe. Ele ficou com os olhos marejados. (A última vez em que o tinha visto com os olhos úmidos fora exatamente quando me narrara seu problema.) E eis-me aqui cumprindo o desejo de minha mãe. E também meu: fica registrada aqui minha gratidão eterna a meu amigo Zé. Como Agostinho em relação ao tempo, não sei definir a amizade. Mas sei o quanto um amigo pode tornar nossa vida melhor. Obrigado, Zé. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Balzáqueas 4&quot;O amor contém em si um fenômeno tão raro que se pode viver a vida inteira sem encontrar...</title>
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      <pubDate>Sat, 16 Aug 2008 11:29:40 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Balzáqueas 4&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&quot;O amor contém em si um fenômeno tão raro que se pode viver a vida inteira sem encontrar a criatura a quem a natureza conferiu o dom de nos fazer felizes. Essa reflexão é de arrepiar porque, se a criatura é encontrada tarde, que fazer?&quot;&lt;br/&gt;Balzac</description>
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      <title>Miopia amorosaMeu tio Fábio, falecido homem sábio do interior, certa vez me disse o seguinte: “Mante...</title>
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      <pubDate>Mon, 11 Aug 2008 15:33:11 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Miopia amorosa&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Meu tio Fábio, falecido homem sábio do interior, certa vez me disse o seguinte: “Mantenha distância de mulheres que usem muito as palavras ‘eu’, ‘meu’, ‘minha’. Prefira as que falem ‘nós’, ‘nosso’ e ‘nossa’. Algumas vezes não segui os conselhos de tio Fábio, Deus o tenha. E nessas vezes todas vezes me dei mal. Topei com mulheres egocêntricas, para as quais poucas coisas, se é que alguma, importavam além delas mesmas. (A advertência de tio Fábio se aplicaria perfeitamente também para as mulheres. Fosse eu Fabia, não Fabio, ele certamente diria para fugir de homens que despejam pela boca ‘eu’, ‘meu’, ‘minha’.)&lt;br/&gt;A boa relação amorosa só é boa porque os dois pensam menos em seus interesses pessoais e mais nos interesses de ambos. Não estou dizendo aqui, longe disso, que você deve abdicar de suas vontades. Quando você faz isso começa a morrer. O que estou propondo – aliás, nem sou eu, mas tio Fabio - é que se levem em consideração as vontades dos dois. (E lá vou eu para mais uma digressão. Um amigo meu, Carlos, um grande cara, sempre bem-humorado, gosta de contar sorrindo que sua namorada joga fora seu exemplar da Playboy quando o vê com a revista. Um dia esse sorriso fatalmente desaparecerá. Carlos abdicou de sua vontade. E foi ajudado por uma namorada que diz copiosamente ‘eu’, ‘meu’ e ‘minha’. Namoros assim não podem dar certo. E não dão.&lt;br/&gt;Você tem que doar algo no amor. E a mulher também tem que doar algo a você. O grande amor, o amor verdadeiro, é essencialmente solidário e altruísta. Ela quer sair pra dançar. Você quer ficar em casa comendo pipoca e vendo o teipe de um jogo do campeonato italiano. É uma situação absolutamente normal. Banal. Ela se complica quando nem você consegue enxergar o desejo dela (e concordo que sair para dançar é um grande mico, sobretudo quando se pode ver o teipe de um jogo e há um saco de pipoca louco pra ser posto no microondas), nem ela o seu. Os dois são, nesse caso, amorosamente míopes. E não há nada, nem mesmo uma abrasadora química que leva a um sexo extasiante, que resista à miopia amorosa. O míope amoroso só vê a si próprio. E depois, quando as coisas não dão certo, atribui toda a responsabilidade à outra parte. &lt;br/&gt;Permissão para mais uma digressão? Gracias. O míope amoroso (homens e mulheres estão incluídos nessa categoria, evidentemente) jamais limita sua miopia ao campo do amor. Estende a todas as outras atividades. No trabalho, o chefe é, para ele, sempre um tirano injusto. E o colega, na visão parcial e distorcida dele, está sempre pronto para puxar seu tapete. Quando um projeto fracassa, a culpa é jamais do míope. O míope amoroso é míope profissional também. O mundo o persegue, cruel como um cossaco russo, para usar uma expressão clássica de tio Fabio. (Jamais soube se os cossacos russos eram cruéis mesmo. Mas não faz mal. Se tio Fabio falou, para mim, já é mais que o suficiente.)&lt;br/&gt;Reconhecer uma mulher que só pensa nela mesmo é fácil. Ela pode ser esperta o bastante para não abusar do uso de ‘eu’, ‘meu’ e ‘minha’. Mas numa conversa, quando você estiver falando de suas coisas, os olhos dela rapidamente voarão para um ponto bem distante. Ela não prestará atenção senão no que disser a respeito ela mesma. A mulher de vista plena, em oposição à míope, olhará fixamente nos olhos. Ouvirá com devoção cada palavra que você disser, mesmo que não concorde com nada. E depois será capaz de reproduzir suas falas nas vírgulas. Os relacionamentos são todos difíceis, sabemos  nós. Mas são simplesmente impossíveis quando a seu lado está uma míope amorosa. Aí, por mais esforço que você dedique ao namoro, por mais empenho que tenha para que as coisas funcionem, se tratará de mais um triunfo da esperança sobre a experiência, para usar a clássica expressão do Dr. Johnson.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Balzáqueas 3&quot;A mulher talentosa, na sociedade, sabe tanto o que falar quanto o que calar.&quot;Balzac</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Sun, 10 Aug 2008 13:28:06 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Balzáqueas 3&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&quot;A mulher talentosa, na sociedade, sabe tanto o que falar quanto o que calar.&quot;&lt;br/&gt;Balzac</description>
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      <title>A mulher e o homem menos sexy do mundo“Acho um absurdo”, disse Cris a Pedro.Cria achava muitas coisa...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Tue, 5 Aug 2008 17:39:56 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;A mulher e o homem menos sexy do mundo&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“Acho um absurdo”, disse Cris a Pedro.&lt;br/&gt;Cria achava muitas coisas absurdas, pensou Pedro.  Era uma mulher de opiniões firmes. Passional.  Punha as mãos nos quadris quando estava irada. Estavam numa mesa no Nossa Senhora, e ela bebia um Cosmo, como aprendera com Sex and The City. Pedro tomava um steinhegger, como aprendera com seus mestres no jornalismo nas madrugadas no Bar do Alemão depois do fechamento da revista.&lt;br/&gt;“O que é absurdo?”&lt;br/&gt;“A Maxim. Aquela revista machista. Dizer que a Sarah Jessica Parker é a mulher menos sexy do mundo. Ela é o maior símbolo da mulher moderna.  Inteligente, chique. Fora os Manolos. Ela ficou chateada. Os caras foram sacanas com ela. Você não acha?”&lt;br/&gt;Cris olhos para Pedro com um olhar que ele julgou pedir solidariedade a Sarah Jessica Parker. Mas a verdade é que ele não discordava dos editores da Maxim.&lt;br/&gt;“Hmmm. Não. Sinceramente não.  Mulher sexy faz bispo chutar poste, como diz o tio do Fabio.  Você olha para a Sarah Jessica Parker e pensa em muita coisa, menos em sexo.  Aliás: as outras três amigas poderiam estar no pódio ao lado dela. ”&lt;br/&gt;“Você é um machista como aqueles caras da Maxim, Pedro. E eu umas vezes amo isso. Mas outras vezes odeio. Como agora. Eu fui moldada pela Carrie e suas amigas. Elas foram minha maior inspiração na vida. Eu vi todos os episódios. Sabe o que é isso? Tenho as temporadas completas em DVD. Conheço cena por cena.” &lt;br/&gt;Pedro se lembrou de uma seleção de episódios que Cris fizera depois de três taças de vinho. Lol. Carrie, para ele, ficava menos sexy a cada episódio. Suas amigas também.  Miranda mais que todas.  Parecia um garoto desajeitado. A Pedro não surpreendeu que a atriz que fazia Miranda tornasse pública sua preferência por mulheres. Estava na cara que era uma sapata. As cenas na cama com homens. Miranda parecia enojada, e o parceiro também.&lt;br/&gt;“E o Kaká, você também achou absurdo?”, perguntou Pedro. A revista Criativa fizera uma lista parecida com a da Maxim. Só que com homens. Os caras menos sexy do mundo. Galvão Bueno estava lá. Luciano Huck também. Tom Cruise, claro. À frente de todos, Kaká. Mais um título em sua carreira. O melhor jogador do mundo em 2007 segundo a Fifa. O homem menos sexy do mundo em 2008 segundo a Criativa.&lt;br/&gt;“Não”, respondeu Cris. “ O Kaká parece um pastor. Mas a Sarah Jessica Parker.  Os caras da Maxim deviam receber uma punição exemplar pelo que disseram dela.”&lt;br/&gt;“A melhor punição que eles poderiam receber é passar uma noite com ela e as três amigas.”&lt;br/&gt;Cris ia falar alguma coisa em defesa das quatro, mas achou melhor simplesmente pedir mais um Cosmo em homenagem a suas inspiradoras. Mesmo o mundo machista dos editores da Maxim e de Pedro fica melhor depois de dois Cosmos, pensou ela.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Balzáqueas 2&quot;Não há estímulo maior no amor para uma jovem mulher do que um obstáculo.&quot;              ...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Sun, 3 Aug 2008 18:56:07 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Balzáqueas 2&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&quot;Não há estímulo maior no amor para uma jovem mulher do que um obstáculo.&quot;&lt;br/&gt;                                                                                        Balzac</description>
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      <title>O primeiro amor                           Tio Fábio, Deus o tenha, foi um homem sábio do interior. U...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Thu, 31 Jul 2008 19:59:44 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;O primeiro amor   &lt;/b&gt;    &lt;br/&gt;                    &lt;br/&gt;Tio Fábio, Deus o tenha, foi um homem sábio do interior. Uma vez ele me viu aflito com uma pilha caótica de livros que eu tinha na cabeceira. Tanta coisa para ler, tão pouco tempo: esse é o motivo da minha aflição, expliquei a tio Fábio. Na próxima vez que o encontrei ele me passou uma citação de Sêneca, o grande filósofo romano de quase 2000 anos atrás. Tenho-a até hoje. “Uma profusão de leitura sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra. É melhor se aplicar num pequeno número de atores do que vagar no meio de muitos.” (Adiante, conforme me contou tio Fábio, Sêneca quase louvou o célebre incêndio da biblioteca de Alexandria, considerado pela visão convencional como um dos maiores desastres culturais da humanidade. Sêneca qualificou a biblioteca queimada como um exemplo de “orgia de literatura”. Tio Fábio gostava de Sêneca porque admirava gente que pensa diferente. Herdei essa admiração. Uma das razões pelas quais falo tanto de tio Fábio é que ele pensa diferente.)&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Agora confesso que esqueci por que falei em Sêneca e no esforço inútil despendido em letras inúteis. Ah, lembrei. É que no esforço de seguir o romano genial eu passei a me concentrar em alguns autores, não numa infinidade. E tirei de minha vista a montanha de livros que me trazia tanta ansiedade. Entre as minhas poucas e boas constantes leituras estão dois escritores “espirituais”. Um deles é o monge católico Thomas Merton, já morto. O outro é o monge zen Thich Nhat Hanh, um vietnamita que ergueu uma comunidade budista num lugar retirado na França.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Citei ambos porque, em livros que escreveram, eles trataram de um assunto que é único, vital, indelevelmente marcante na vida de um homem: o primeiro amor. É quando descobrimos que não somos mais crianças. É quando descobrimos que existem outros prazeres além da bola de futebol ou do videogame. E é quando descobrimos também o quanto a alegria está conectada com a tristeza. O quanto a euforia está próxima da angústia. Um telefone que toca com a voz de quem você deseja ouvir. É então o êxtase. Um telefone que teima em ficar cruelmente silencioso. Você é um antes do primeiro amor. E outro depois. Os beijos. O adeus. (E então me ocorre aquela linda canção chamada Crying Game, que deu nome ao filme com o mesmo nome. “First there are kisses/ Then there are sighs/ And then before you know where you are/ You’re saying goodbye”. Primeiro os beijos, depois o suspiros, e antes que você saiba onde está, já está dizendo adeus, mais ou menos isso numa tradução livre. A gravação de Crying Game por Boy George é estupenda.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Merton, em sua autobiografia, nota algo que eu nunca tinha pensado. Somos tão jovens, tão frágeis, quando aparece pela primeira vez em nossa vida aquela onda avassaladora, o primeiro amor. Tanto impacto e somos tão indefesos. Merton se apaixonou antes de virar monge. Thich Nhat Hanh, num pequeno livro chamado Cultivando a Mente de Amor, confessa a paixão que o tomou quando, jovem monge, conheceu uma monja. Ele diz que decidiu falar desse amor para ajudar os outros monges que por acaso enfrentem a mesma situação. Transcrevo um texto que Thich Nhat Hanh fala do objeto de seu amor: “O comportamento dela como monja era perfeito - a forma de se mover, de olhar, de falar. Ela era tranqüila. Jamais dizia alguma coisa, a menos que lhe perguntassem”. (Eis, segundo meu amigo Thunder, que recentemente adotou uma barba hemingwayana, a fórmula da mulher perfeita. A que só fala quando lhe pedem para falar. Thunder é um cínico amoroso.) Mais adiante o monge budista compara seu amor a uma tempestade pela qual ela e ele tinham sido apanhados sem saber como. E também sem saber como escapar. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ele aconselha a gente a pensar, tempos depois, no primeiro amor. Vamos notar coisas que não percebemos na ocasião. É o que faço agora. Deus, que tempestade. O vestido verde e a blusinha amarela da festa em que começamos a namorar. Os cabelos negros, a tez morena, os olhos verdes. A menina mais bonita da cidade. Afastei-a de mim porque não suportava me sentir tão pequeno. Quanto tempo demorei para entender meu comportamento destrutivo. A tempestade do primeiro amor. Fui apanhado por ela, e poderia ter me deixado levar por suas águas copiosas e deslumbrantes, mas não tive força para fazer outra coisa que não fosse fugir. Fugi de tudo. Até de mim mesmo.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Balzáqueas 1Erro pela minha biblioteca desorganizada. Apanho um Balzac, e me dá vontade de reler A C...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Tue, 29 Jul 2008 18:41:51 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Balzáqueas 1&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Erro pela minha biblioteca desorganizada. Apanho um Balzac, e me dá vontade de reler A Comédia Humana. Balzac foi o maior de todos os romancistas. Um contador de histórias sublime. Ferino, cáustico, corrosivo. Se você tem que ler um romancista na vida, o nome é Balzac. Me ocorre compartilhar aqui algumas de suas frases espirituosas. Vou enfeixá-las sob o título Balzáqueas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A quem agrada a idéia? A quem não?&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Bem, antes que essa enquete diga algo, vamos a uma amostra. Uma jovem e inocente esposa procura uma mulher madura e libertina em busca de conselhos amorosos. Seu marido estava se comportando mal. O irônico é que a jovem vai atrás exatamente da mulher por quem seu marido estava encantado. A libertina se comove com a infeliz em lágrimas. E lhe diz: “Em primeiro lugar, aconselho-a a que não chore assim, porque as lágrimas enfeiam. É preciso saber conformar-se com as tristezas; estas fazem adoecer, e o amor não fica muito tempo junto a um leito de dor. A melancolia dá, é verdade, no começo, um certo encanto que agrada, mas acaba por desmerecer as feições e emurchecer o rosto mais sedutor. Além disso, nossos tiranos – os homens – querem que suas escravas estejam sempre alegres.&quot;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Nem Sócrates poderia dizer coisa mais sábiaUma cena de Beleza Americana me impressionou particularme...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Sat, 26 Jul 2008 18:42:31 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Nem Sócrates poderia dizer coisa mais sábia&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Uma cena de Beleza Americana me impressionou particularmente. O filme todo me fascinou, aliás. Tenho que vê-lo de novo. Acho sublime, comovedora aquela busca desesperada e vã do homem pela juventude perdida. Mandar para o lixo a carreira bem-comportada depois de uma conversa franca com o chefe dilbertiano e ir trabalhar numa lanchonete, sem metas e cobranças que fossem além de entregar com um sorriso o hambúrguer para o freguês. Comprar um carrão imprestavelmente lindo de 20 anos atrás apenas para realizar um sonho que ficará lá longe num mundo que se perdera. E correr atrás de uma garota como se fosse, ele próprio, um garoto e não um homem vencido pelo correr dos dias. Braços remando contra a correnteza, como escreveu Fitzgerald no final de Gatsby. Somos condenados a remar contra a correnteza, e só não encerro essa digressão aqui porque me ocorre uma frase de Cícero cortante como a espada de Musachi, o maior dos samurais: o tempo nos tira as certezas que temos na juventude e, ao perdê-las, vai com elas uma ousadia petulante que é maravilhosa por ser ingênua. E essa é a maior das maldades do tempo, e ainda que as certezas fossem, todas elas, erradas.&lt;br/&gt;Mas era sobre a cena da primeira sentença que eu queria falar. A mãe frustrada, que imagina encontrar a resposta para um casamento miserável nos braços de um amante rico e engomado, diz para filha depois de uma briga conjugal que terminou com pratos lançados na parede: ‘’Você aprendeu a maior de todas as lições, você aprendeu que tem que contar apenas com você mesma”. Quando narrei esse episódio a tio Fábio, ele, com sua voz estentórea de imperador romano, disse: “Sócrates não teria falado nada melhor. Talvez Sêneca, mas mesmo assim não tenho certeza”. (Sêneca era o filósofo predileto de tio Fábio.)&lt;br/&gt;Temos que contar com nós mesmos, e no entanto quase sempre depositamos nossa felicidade (ou infelicidade) nos outros. Ninguém pode nos ajudar se nós próprios não nos ajudamos. Ninguém mesmo: nem a mãe, nem o pai, o amigo, o irmão, a namorada ou a mulher. Ninguém. Vivemos num mundo em que a solidão é tratada como um anátema, um estigma, um mal a evitar. Um grande homem da Roma Antiga disse que jamais estava menos só do que quando estava só, entrega às reflexões. E no entanto poucas coisas nos enchem de tamanho horror quanto a solidão. É porque não contamos com nós mesmos. E assim lá vou eu pra mais uma das minhas citações favoritas: estamos sempre fugindo de nós mesmos. Lucrécio, poeta romano.&lt;br/&gt;A única coisa que temos sob nosso controle somos nós. Nossa mente e nossas ações. O resto, não. Sua namorada deixou você? É triste, se você gosta dela, mas, se você tem presente que deve contar mesmo é com você próprio,  esse é um episódio de tranqüila superação. Não está no seu controle obrigá-la a amá-lo até o último dia. Sob seu controle está você mesmo. É com você mesmo que você deve contar. Não pode haver mais sólido refúgio do que esse contra  as adversidades e incertezas da vida. Foi isso que, naquela cena de Beleza Americana a mãe disse à filha. Era uma mulher histérica, descontrolada, falsa. Mas, vale a repetição, nem Sócrates poderia ter dito uma coisa mais sábia à garota arrasada. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Frase do Dia&quot;Após um divórcio, tudo que posso dizer é que na melhor das hipóteses há uma frieza mort...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Mon, 21 Jul 2008 17:14:58 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Frase do Dia&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&quot;Após um divórcio, tudo que posso dizer é que na melhor das hipóteses há uma frieza mortal e, na pior, uma ativa sacanagem de parte a parte.&quot;&lt;br/&gt;Norman Mailer, o grande escritor americano morto recentemente, um cara que quis ser Hemingway e quase conseguiu. Casou e se divorciou algumas vezes&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Dona Isabel e Bira   Palavras de tio Fábio, um homem sábio do interior: “Você tem, pela vida afora, ...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Fri, 18 Jul 2008 17:09:39 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Dona Isabel e Bira&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;   Palavras de tio Fábio, um homem sábio do interior: “Você tem, pela vida afora, uma infinidade de modelos para seguir. A sabedoria está em escolher os modelos certos e descartar os errados. Parece fácil, mas, como tudo o que parece fácil, é na verdade dificílimo”. Reproduzo de memória as palavras de tio Fábio. (Eu deveria estar sempre munido de caneta e papel ao conversar com tio Fábio para registrar suas impressões, mas sou indisciplinado demais para isso.) E coloco em sua boca uma expressão que ele jamais usaria, um superlativo, o “dificílimo’’. Tio Fábio, como todo cultor da elegância ao falar e escrever, despreza os superlativos, recurso de escritores baratos como seu sobrinho.  (O agregado criado por Machado de Assis em Dom Casmurro, um pequeno grande personagem da literatura brasileira, era obcecado por superlativos.) &lt;br/&gt;   Mas o assunto são os exemplos, as referências que tomamos para a vida. Gostaria de falar de dois modelos que tive, um de um homem e um de uma mulher. O de mulher foi dona Isabel. Dona Isabel foi a empregada de minha casa nos meus dias de garoto. Descobri a força da mulher em dona Isabel. Com uma vassoura e seus gritos potentes, tocava com completa autoridade para fora de casa meus amigos quando eles faziam o que ela julgava ser bagunça. &lt;br/&gt;  Dona Isabel era nordestina. E nos ensinou, sem querer, o inigualável linguajar nordestino. “Esse menino num vai tomá rujão de gente”, dizia sobre mim quando eu fazia arte. Ela previa, aliás com clarividência, que o pequeno Fabio não criaria tão cedo juízo. Dona Isabel passou a vida inteira falando errado o nome de meu pai. Ainda hoje, tantos anos depois da morte de ambos, lembro com emoção a maneira como ela o chamava.  Seu Ermírio.&lt;br/&gt;   Dona Isabel chegava cedo em casa. Lá pelas 6 da manhã. E não tinha a menor cerimônia em entrar no quarto que eu dividia com meu irmão, abrir as gavetas estrepitosas e guardar as roupas. Como preciosa compensação, levava na cama, a mim e meu irmão, um copo de Nescau bem preto. Dona Isabel vivia só, abandonada pelo marido, e cuidava bravamente de uma série de filhos, e depois dos filhos dos filhos. Nunca disse a ela o quanto a amava, e agora penso que se lhe dissesse ela me mandaria tomar ‘’rujão de gente’’. &lt;br/&gt;   Rendi-lhe o canhestro tributo de um escritor barato há alguns anos, quando escrevi um conto pornográfico chamado Dona Isabel. Ela não o leria, ainda que estivesse viva, pois era analfabeta. Com dona Isabel não conheci apenas o poder da mulher. Aprendi também que a sabedoria não está na cultura livresca. Dona Isabel não sabia ler, e foi uma das pessoas mais sábias que conheci. Uma das culpas que levo comigo é não ter ido a seu enterro. Imagino que eu estivesse no fechamento da revista, mas logo percebi que mil fechamentos de revista não valiam o ato de despedida de uma das mulheres que mais amei em minha vida, e a quem sou mais grato.&lt;br/&gt;  Agora o homem, um de meus modelos masculinos. Bira era o nome. Não sei se Ubirajara ou Ubiratã. Bira era o típico galã da baixada: bonitão, sempre bronzeado, galanteador. Dizia para as mulheres, olhando-as bem nos olhos, num tom macio e bem lentamente: ‘’Meu bemmmmm’’. Picasso dizia que as mulheres se dividem entre  deusas e capachos, e queria que todas fossem capachos para ele. Bira fazia o contrário. Todas eram deusas. Com  Bira aprendi que rir é o melhor remédio. Foi meu companheiro em memoráveis noites de pôquer na baixada. De vez em quando, dizia que precisava se afastar do jogo; então se levantava e afastava a cadeira da mesa.  Uma das melhores cenas de jogo que conheço foi estrelada por Bira. Muitas fichas na mesa, apreensão, suspense. Bira anuncia uma seguida, para tristeza de todos nós os outros jogadores. Ao colocar as cartas na mesa, Bira acreditava mesmo ter um grande jogo. Só que era uma sequência furada. Bira estava bêbado, como sempre. Era impossível não perdoá-lo, e nós afinal achamos graça numa jogada que com outro cara nos teria enfurecido.&lt;br/&gt;  Bira foi dono do Bira’s bar, na Vila Mar, para mim mais excitante que o Rick’s bar de Casablanca. Comandava o bar com a classe de Humphrey Bogart, e com muito mais bom humor. Seu bar era decorado com frases que se vêem em pára-choques de caminhões. Uma delas dizia: ‘’Se você me encontrar abraçado com mulher feia, separa que é briga’’.  Pelo menos em minha memória eram lindas as mesas em sua simplicidade de litoral pobre. Pareciam pequenas cabanas.  Bira viveu rindo e fazendo rir e, enquanto ria e fazia rir, bebia. Adolescente, mantive ali uma conta nos verões pelo dinheiro que Bira me devia no pôquer. Bira dizia que eu era perigoso no jogo. Nunca comi camarões fritos comparáveis aos feitos por Vilma, a mulher de Bira.&lt;br/&gt;  Morreu de beber no natal passado. (Sem piada.) Mando daqui minha gratidão eterna, Bira Boy, galã supremo da Vila Mar, por tantos risos que você me proporcionou. &lt;br/&gt;</description>
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      <title>Saudade do PoltergeistCris e Pedro estavam à beira da piscina em Ribs, cada qual com um livro. Pedro...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Fri, 11 Jul 2008 15:10:27 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Saudade do Poltergeist&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Cris e Pedro estavam à beira da piscina em Ribs, cada qual com um livro. Pedro relia um romance policial de Agatha Christie,  O Caso dos Dez Negrinhos. Agatha Christie sempre fora sua escritora policial predileta. Lera ao longo dos anos muitos anos romancistas policiais supostamente superiores, de PD James a Chandler, de Hammett a Patricia Highsmith. Mas todos lhe pareciam principiantes comparados a Christie na arte de desafiar o leitor a encontrar o assassino. Regularmente Pedro fazia uma limpeza em sua biblioteca, e dava os romances policiais. Excetuada sua amada coleçao de Agatha Christie. Pedro lhe era imensamente grato por tanto entretenimento proporcionado ao correr dos longos dias. Havia, fora isso, um elo com o pai. Como Graham Greene, o primeiro livro de Agatha Christie que lera lhe fora passado pelo pai. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Cris estava lendo um livro de ensaios de Paul Johnson, uma ode aos inovadores e criadores na arte, de Chaucer a Austen, de Dürer a Shakespeare, de Hugo a Turner. Cris pintava. Tinha uma tela em sua sala, e vendera quadros por uma quantia interessante numa temporada que passara na Europa. Tinha uma reproduçao de um Klimt em sua casa. De Klimt amava tanto quanto a arte o amor dedicado a sua mulher e modelo. Era jovem, espirituosa, inteligente. Petulante como costumam ser as mulheres bonitas. Pedro a imaginou num repente gravida, embora as mulheres da geraçao Sex And The City parecessem nao apreciar tanto assim a maternidade. Uma criança morena e agitada, como a mae, pensou. Sofia talvez fosse um bom nome. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“Detestei”, disse ela. Tirou os olhos de Natasha do livro e os fixou em Pedro.&lt;br/&gt;“O quê?” Pedro sabia que Cris era temperamental. Amava as coisas com facilidade, mas podia detestar com facilidade ainda maior.&lt;br/&gt;“O que o Paul Johnson escreveu sobre as mulheres. Você gosta dele, nao?”&lt;br/&gt;“Adorava os artigos dele na Spectator. Ele fazia o pensamento liberal ficar imensamente charmoso. Como o Buckley nos Estados Unidos. Caras assim fariam bem ao Brasil. Acho legais os perfis demolidores que ele escreveu sobre intelectuais como o Tolstoi.”&lt;br/&gt;“Os perfis neste livro que estou lendo sao em geral positivos. Mas o que ele fala das mulheres escritoras como a Jane Austen e a George Sand. Vontade de matar o cara.”&lt;br/&gt;“O que ele fala afinal?”&lt;br/&gt;“Em resumo. Que se elas fossem bonitas e atraentes teriam gerado filhos em vez de livros, e que a gente deve agradecer a natureza por tê-las feito feias o suficiente para se dedicar nao ao casamento e sim à literatura.”&lt;br/&gt;“Lol.”&lt;br/&gt;“Engraçado isso?  Esse machismo horroroso?”&lt;br/&gt;&quot;Me cita um trecho legal desse livro.&quot;&lt;br/&gt;&quot;Umas palavras de um pintor japonês. Katsushika. &apos;Desenho formas e objetos desde os seis anos. Aos 50 produzira um numero infinito de desenhos. Mas nao estou satisfeito com o que fiz antes dos 70. Aos 80, progredira muito. Aos 100 terei chegado a um estado superior de arte e, aos 110, cada ponto e cada linha terao vida. Desafio aqueles que viverem a ver se cumprirei minha promessa.&apos; Ele tinha 83 anos quando disse isso.&quot; &lt;br/&gt; &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pedro percorreu com os olhos o corpo de bailarina de Cris, esculpido finamente ao longo de anos de exercicios penosos de barra e logo tornado moreno pela luz do sol. Tinha se desinteressado de Agatha Christie, Paul Johnson, Jane Austen e George Sand, e de todas as escritoras que tinham se dedicado às letras por supostamente nao terem encontrado homens interessantes que as desejassem e as levassem ao altar e lhes dessem filhos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“Saudade do Poltergeist”, ele disse. Nenhuma outra pessoa entenderia senao Cris. Era o suficiente.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>De volta a mim mesmoUma semana de férias. De volta aos lugares em que nos dias jovens meu coração ba...</title>
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      <pubDate>Mon, 7 Jul 2008 09:43:08 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;b&gt;De volta a mim mesmo&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Uma semana de férias. De volta aos lugares em que nos dias jovens meu coração batia inocente.&lt;br/&gt;Por uns instantes fugidios estarei com o menino que teve olhos de Natasha. Aqueles olhos rútilos que só temos uma época na vida, aquela em que acreditamos, sonhamos -- e confiamos.&lt;br/&gt;Hasta la vuelta.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Fabio</description>
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      <title>Memento MoriMinha primeira revista foi a Vip, da qual lembro com o afeto e a gratidão dedicados a co...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Fri, 27 Jun 2008 19:33:11 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Memento Mori&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Minha primeira revista foi a Vip, da qual lembro com o afeto e a gratidão dedicados a coisas e pessoas que fizeram diferença na nossa vida, e para melhor. Fui colunista lá, sob o título de Homem Sincero. Uma vez participei de uma reportagem especial  cujo tema eram os fracassos masculinos. Um amigo meu falou na primeira demissão. Ele recomendava às pessoas que se comportassem, no trabalho, com a lógica do samurai: cada dia pode ser o último. Sem paranóia, sem desespero, sem pânico. Apenas com realismo e serenidade. Quem está preparado para as dificuldades sofre menos com elas. Sêneca falava no perpétuo vai-e-vém de elevações e quedas, e eis uma frase que levo na alma. A gente pensa que os problemas só acontecem com os outros: morte, perda amorosa. E quando eles acontecem conosco, sem que os esperássemos, nossa aflição é enorme. Muitas vezes, maior que o próprio problema. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ao reler sei lá por que o texto de meu amigo decidi me atrever aqui ao crime de plágio. Meu amigo haverá de me perdoar, quando menos por conta dos velhos tempos em que éramos camaradas de compartilhar sonhos, desilusões e tudo mais o que grandes amigos dividem.  Vimos juntos A Mulher do Lado, Era uma vez na América e Corrida contra o Destino. Lemos ao mesmo tempo O Poder e a Glória, Fim de Caso e os Ensaios. Pego a lógica do samurai da qual ele falou profissionalmente e a transporto para o mundo amoroso. Acho que os que amam deveriam viver cada dia como se fosse o último. Até porque, como tudo, um dia isso vai acontecer. Ou porque um dos dois vai se cansar do outro, ou por morte, ou pelo que for. Nada é para sempre. Já ouviu All Things Must Pass, do George Harrison? Estou ouvindo agora. &lt;i&gt;Sunrise doesn’t last all morning&lt;/i&gt;. O sol não se ergue toda a manhã.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Li um livro com um nome estranho. Memento Mori. É de uma  admirável escritora escocesa,  Muriel Spark. Memento mori, em latim, significa: lembre-se de que vai morrer. Um velhinho, ou uma velhinha, diz no romance que essa reflexão deveria ser feita diariamente pelos jovens. Quanto mais se medita sobre a morte, menos aterrorizadora ela nos parece. O santo tibetano Milarepa morava em cavernas no Tibete sempre próximas de cemitérios.  Epicteto recomandava nunca se afastar da idéia da morte justamente para abrandar seu impacto e vivermos uma vida plena. Morremos mil vezes do medo de morrer, disse Sêneca. Memento mori. Lembrarmo-nos de que vamos morrer é um antídoto contra esse terror de cada minuto. (Sei perfeitamente que o que estou escrevendo soará bizarro no mundo de fantasia em que vivemos, em que a idéia da morte é ingenuamente negada, em cujos comerciais de TV somos todos jovens, bonitos e saudáveis sempre.)&lt;br/&gt;E então volto ao campo das relações sentimentais. Viver cada dia como se fosse o último vai fazer você dizer hoje as coisas bonitas que tem para dizer a ela. Vai fazê-lo dar um beijo não automático nem monocórdio, mas intenso e definitivo. Vai fazer você comprar flores que há tanto tempo saíram do seu decrescente repertório de gentilezas. Viver cada dia como se fosse o último vai fazer você dar o devido valor às pequenas coisas boas que os dois conquistaram juntos e também o devido valor às pequenas coisas ruins para as quais os dois atribuíram um tamanho desmedido. &lt;br/&gt;Talvez faça você viver um eterno verão sentimental até que, e isso é inevitável, gostemos ou não, surja diante do casal o inverno cruel do nunca mais, nunca mais, nunca mais.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>What a Wonderful WorldOffice. Meu. Assista. The Office. O original é inglês. Duas temporadas, e o au...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Sat, 21 Jun 2008 20:10:47 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;What a Wonderful World&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Office. Meu. Assista. The Office. O original é inglês. Duas temporadas, e o autor achou que o ciclo se acabara. Há uma enorme sabedoria em saber o tempo de chegar e o tempo de partir. Em tudo. Numa relação amorosa. Ou profissional. Quantas histórias de amor não permitiram lembranças lindas porque os dois amantes não souberam o tempo de partir, e arrastaram os restos de algo que tinha sido elevado e se tornara penoso? Onde haveria recordações consoladoras ergue-se, nestas situações, uma parede de raiva e amargor. Tempo de partir. Lembro uma cena de Blade Runner em que o andróide loiro filosoficamente contempla a imensidão da noite e para além dela sua própria mortalidade, do alto de um prédio, e com bravura  diz ter chegado o tempo de partir.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas. Mas. Eu estava falando de The Office. A edição inglesa e a americana, brilhantes ambas. Mike e Dwight fazem diferença na versão americana. Mike, o chefe do escritório, é interpretado por Steve Carell. Pedro me chama a atenção para o cabelo dele. De uma temporada para a outra ele está mais cabeludo. Implante. Recebo um torpedo de meu irmão Juanito. Vá ver Agente 86.&lt;i&gt; Mucho bueno&lt;/i&gt;. Carell faz o Agente 86. Agora. Agora. A música. A música do original inglês é infinitamente mais bonita. Um trecho de Handbags and Gladrags, de Rod Stewart. A grande voz rouca indaga, sob uma melodia doce comandada por um piano: &lt;i&gt;so what becomes  of you, my love, when they had finally stripped you all? &lt;/i&gt;Uau. Suspiro profundo agora. O que se tornou de você, amor?&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Quantas vezes na vida você olha para alguém amado – sua namorada, ou um amigo de longas jornadas  -- e tudo que você tem a dizer é exatamente isso. O que se tornou de você? Era Uma Vez na América. Sergio Leone.  A cena final. De Niro, o amigo traído. James Woods, o traidor. Tantos anos depois. Woods busca o perdão nos olhos de De Niro. Que em seu silêncio impenetrável parece apenas dizer:  o que se tornou de você? Leone. Sou fascinado por Leone e seus closes nos olhos dos personagens nas cenas mais dramáticas, Enio Morriconni ao fundo. Toda vez que a câmara de Leone se fixava nos olhos de um personagem este parecia indagar, sem resposta, o sentido das coisas. Como decifrar a beleza miserável que existe nesta vida, para citar uma frase de um dos filmes que mais me marcaram, Beleza Americana.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas. Mas. Eu queria falar de como o mundo é maravilhoso. What a Wonderful World.  Acho piegas a versão de Louis Armstrong. Deus.  O cara talvez acreditasse também em Papai Noel, ou em finais felizes. Mundo Maravilhoso. Lol. Agora. A versão punk, pungentemente devastadora, de Joey Ramone. Joey reproduziu a grandeza épica de Sid Vicious em My Way e Kurt Cobain em Where Did You Sleep Last Night. Joey estava morrendo ao gravá-la. Tempo de partir. &lt;i&gt; Hector was the first of the of the gang to die&lt;/i&gt;. Morrissey cantando. O primeiro Ramone a morrer. &lt;i&gt;He stole our hearts away&lt;/i&gt;. Quebrou nossos corações.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas. Mas. Ele fez grande arte ao recriar What a Wonderful World. Michael Moore entendeu assim. A cena final de Columbine.  Meninos mortos a tiros por outro menino. E então a guitarra pesada e tosca, a voz que vem das entranhas, e o cantor moribundo lembrando a todos nós o quanto é lindo o mundo.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Lembro que o plano era ficarmos bemEra um final de caso, e a mulher que partia me disse que ligou o ...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Wed, 18 Jun 2008 20:29:41 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Lembro que o plano era ficarmos bem&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Era um final de caso, e a mulher que partia me disse que ligou o rádio do carro porque sabia que a música que ia tocar falaria de nós dois. O acaso trouxe Vento no Litoral. Não gosto particularmente de Renato Russo e nem da Legião Urbana. Conheço pouco, é verdade, mas tenho o forte sentimento de que conheço o suficiente. Não tenho tanto tempo disponível assim para ouvir músicas, e tenho que escolher bem. Renato Russo não está na minha lista A, e nem B. &lt;br/&gt;Mas. Mas. Aquela é uma canção linda, reconheci quando a ouvi depois. Poética, profunda. O som marinho suave ao fundo.  Me lembrei de outra música linda, em que aparece o barulho do mar, Sweet Painted Lady, a doce mulher colorida tão majestosamente descrita por Bernie Taupin numa melodia do jovem Elton John. &lt;i&gt;The smell of the sea in your hair&lt;/i&gt;. O cheiro do mar no cabelo dela. Deus,  Bernie Taupin e Elton John fizeram de uma prostituta barata uma rainha.&lt;br/&gt;Vento no Litoral é uma despedida, uma canção de desesperança e resignação.  Gosto de uma frase em particular. &lt;i&gt;Lembra que o plano era ficarmos bem&lt;/i&gt;. Renato Russo faz uma pequena e dolorosa pausa entre as palavras “ficarmos” e “bem”. Uau. Tenho Vento no Litoral no meu Ipod, mas prefiro não ouvir. Há coisas que é melhor não lembrar num fim de caso, e Vento no Litoral me traz memórias que prefiro deixar adormecidas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas. Mas me chamou a atenção a história de ouvir uma canção ao acaso, e decidi fazer o mesmo. Uma única vez. Estava prestes a chegar à São Gualter, e liguei o rádio. A voz poderosa de Morrisey. Não lembro se a música era da fase solo ou dos tempos dos Smiths, para mim a maior banda dos 90 ao lado do Nirvana. Um trecho. Um trecho que ouvi me fascinou. &lt;i&gt;Para que me preocupar com pessoas que não se importam se vou viver ou se vou morrer.&lt;/i&gt; O trecho. Esse trecho. Capturou meus ouvidos, me deixou tocado. Me fascinou. Para que me preocupar com pessoas que não se importam se vou viver ou se vou morrer. Engraçado. Devo ser bobo, tolo. Mas. Mas. Refleti alguns segundos e vi que me preocupo com com pessoas que não se importam se vou viver ou se vou morrer. Lol. Lembro. Como Vento no Litoral, lembro que o plano era ficarmos bem.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>O Neto e nós, os bacanasMeus amigos. Com freqüência gosto de escrever sobre os meus amigos. Li uma v...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Wed, 11 Jun 2008 20:45:29 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;O Neto e nós, os bacanas&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Meus amigos. Com freqüência gosto de escrever sobre os meus amigos. Li uma vez uma definição sublime sobre a amizade. Era de Montaigne, o filósofo francês dos Ensaios. Vou citar de cabeça. É possível, portanto, que haja diferenças entre o que Montaigne escreveu e o que vou colocar agora, e não para melhor. Os amigos são como uma costura tão sutil que a gente nem nota a linha que os une. Não é à toa que Montaigne é Montaigne. Ele dedicou seus Ensaios a um amigo, de quem francamente não lembro o nome cuja morte simplesmente o arrasou. (Logo ele, Montaigne, um homem finamente cultivado na arte de lidar com a idéia  da morte, apoiado na leitura minuciosa e constante de mestres como Sêneca, o grande estóico da Roma Antiga e filósofo predileto de tio Fabio, um falecido homem sábio do interior. Deus o tenha). Ah, lembrei o nome. La Boètie. Este o amigo de Montaigne cuja morte o atirou numa “longa noite fria e escura”. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;E então eu dedico esta coluna ao Neto. Talvez o Neto nem tenha sido tecnicamente o que se define como amigo. Não sei sequer seu primeiro nome. Neto de quem? Não sei onde ele morava. Mas no correr dos dias encontramos na vida pessoas por quem temos uma simpatia, uma afinidade tão natural e instantânea que as temos na conta de amigas mesmo que não saibamos, como no caso do Neto, seu primeiro nome. Você pode até deixar de ver essas pessoas por anos, talvez para sempre. Mas de alguma forma elas vivem em você. E ao recordá-las, por uma razão ou outra, uma sensação de calor e conforto como que se instala dentro de nós, ainda que seja por instantes rápidos e fugidios. “Não somos nem mais nem menos do que a soma das marcas deixadas em nós pelas pessoas que participam ou participaram da nossa vida”, dizia tio Fabio. Deus o tenha.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Não lembro como conheci o Neto. Um dia ele estava apanhando bolinhas na quadra de tênis em que eu jogava. Um garoto de uns 12 anos, com aquele clássico e fácil sorriso de teclado dos meninos negros. Tênis surrado, camiseta rasgada, outros clássicos. Tinha raça, tinha garra, o Neto. Logo alguém lhe arrumou uma raquete usada, e ele nos momentos de folga treinava, treinava, treinava. Quando jogávamos um contra o outro eu costumava vencer. Mas rapidamente passei a perder. Um dia o Neto simplesmente me matou com suas bolas curtas. Eu não chegava, e ele ria aquele riso de teclado. O saque das flores, como esse saque me machucou. Era um saque com efeito, e me atirava rumo às flores ao lado da quadra. Daí o nome. Anos depois, quando dou um saque que tira o adversário da quadra, me vem à cabeça de imediato o saque das flores. O Neto cresceu no tênis. Virou rebatedor, disputou campeonatos da federação e tentou iniciar uma carreira de professor.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O tênis podia salvar o Neto. Mas de que vale uma raquete diante do destino? A última vez que o vi foi num torneio. Ele jogava contra um cara rico e forte e arrogante. E esse cara chamou o Neto de ladrão. Não sei  se o Neto tinha roubado ou não o ponto, mas hoje quando lembro daquele episódio me arrependo de não ter gritado em favor do Neto e contra o playboy filho da puta. Um remorso que só é grande por fazer que eu me sinta pequeno. O Neto perdeu a partida, não sem antes cair e alegar que tinha torcido o tornozelo, num momento apontando para o direito e em outro para o esquerdo. Lol. Também essa cena ficou marcada em mim. Ele esquecer que tornozelo fingira ter machucado foi uma das situações mais cômicas que vi na vida.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Outro dia  me disseram que mataram o Neto. Contaram que ele  tinha dado para andar num carrão incompatível com a realidade de professores de tênis. Parece que estava metido no crime. Um acerto de contas. Atirou, não acertou, atiraram, acertaram. Quando vi o filme Cidade de Deus, como que vi o Neto. Um bairro miserável, os garotos miseráveis que se inspiram nos bandidos que lhes dão dinheiro e brinquedos depois de bons golpes. A roda gira, e gira, e gira. Mas olho uma foto antiga e o que vejo é um menino negro com um sorriso maior que o mundo, o Neto, meu amigo Neto, de quem jamais soube o primeiro nome, o dono do devastador saque das flores. Neto, o menino que sonhou enfrentar o destino com uma raquete usada, camiseta rasgada e tênis dados como esmola por um de nós, os bacanas.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Êxtase no suplícioEla fala alto com você. Às vezes, grita. Não costuma pedir, mas exigir. Negociar, ...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Mon, 9 Jun 2008 20:40:53 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;br/&gt;&lt;b&gt;Êxtase no suplício&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ela fala alto com você. Às vezes, grita. Não costuma pedir, mas exigir. Negociar, para ela, é sinônimo de impor. O rosto dela reflete um duradouro estado de insatisfação e raiva. Ela faz você ver que não está à altura dela, uma rainha às voltas com um cara banal. Ela está sempre à espreita para agarrar uma oportunidade de brigar: as bananas que você comprou não estavam maduras ou você não deixou o jornal onde o encontrou. Você já nem se lembra de quando ela perdeu o respeito por você. Mas sabe que ela é capaz de passar quase 1 hora ao telefone insultando você, com um variado e poderoso arsenal de impropérios. Ela não gosta de seus amigos e deixa isso claro, para você e para eles. Um derrotado entre derrotados. E parece acreditar que as amigas dela encontraram príncipes encantados. A lista enorme de seus defeitos é conhecida em detalhes pelas amigas e pela família dela.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Bem-vindo ao Clube das Relações Tóxicas. Não há ganho nelas. E tampouco esperança de melhora. Há uma teimosia neurótica de seguir em frente, com crises constantes e cada vez piores. Num certo momento, mesmo que você, num espasmo de razão, veja que não existe sentido em continuar, se sente como que tomado de impotência. A impressão é que uma corrente, um grilhão intransponível, o liga àquela mulher que o reduziu a nada. Você jura que vai embora. Jura que jamais deixará seus ouvidos serem massacrados com tantas palavras negativas. Jura que se libertará de uma tirania insuportável. E no entanto ali permanece, exposto a ataques insistentes.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Uma das crueldades das relações tóxicas é que o final é muito mais difícil de ser alcançado do que quando você tem uma relação boa, civilizada. E então me vem à mente uma frase que sublinhei há muito tempo, numa época em que era ingênuo e ativo o bastante para anotar passagens literárias que me impressionavam: braços que se desenlaçam numa despedida suprema. Finais romanticamente lindos como esse só são conseguidos por casais que não se deixaram tomar pela toxicidade. Nos casos amorosos tóxicos, os braços demoram infinitamente para se desenlaçar, apesar de tantas coisas ruins. E, quando aparece enfim, o desenlace é, quase sempre, para que as mãos desimpedidas atirem pedras.&lt;br/&gt;Há uma patologia psicológica que talvez explique a duração prolongada: o sofrimento pode viciar tanto quanto cigarro ou sorvete de chocolate. Entra aí o paradoxo do êxtase no suplício, uma filigrana psicológica tão sutil que só de pensar em descrever me vem um sentimento invencível de preguiça. E existe um fator físico poderoso: o sexo. Quanto mais tóxica a relação, melhor aparentemente o sexo. É como se a mulher tóxica reservasse o que lhe sobrou de mais interessante para a cama. Ela xinga, espezinha, acotovela você em todos os espaços disponíveis e até nos indisponíveis, mas na cama se comporta como uma cortesã francesa, como a mais lânguida e excitante das marafonas. Horas incessantes de inferno são substituídas por momentos fugidios de glória sexual. A mulher insuportável que até há pouco xingava você pede para ser chamada de vagabunda. A megera que investia contra você suplica por tapas, às vezes pancadas. E quem não concedia nada diz que você pode fazer o que quiser, sim, o que quiser com ela. Parece fantástico, mas um segundo olhar costuma mostrar que, passada a ilusão do deslumbramento, o sexo que emerge de uma relação tóxica é, ele também, tóxico.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Sêneca, as formigas e nósA maior parte das coisas que dizemos e fazemos é inútil. São palavras de ti...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Fri, 6 Jun 2008 18:30:52 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;br/&gt;&lt;b&gt;Sêneca, as formigas e nós&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;A maior parte das coisas que dizemos e fazemos é inútil. São palavras de tio Fábio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha. Imagino que ele tenha se inspirado, nessa frase de imensa sabedoria, em Sêneca, seu filósofo predileto. E meu. Imagino, não. Tenho certeza. Tio Fábio sempre gostou de citar expressões deliciosamente ferinas de Sêneca relativas à idéia do esforço em vão, do suor vertido por nada ou quase nada. Uma delas: agitação estéril. Outra: preguiça excitada. Lembro-me de ouvir tio Fábio contar que Sêneca comparava as ações inúteis ao trabalho das formigas que descem e sobem o tronco da árvore sem nenhum propósito. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Penso que isso acontece com quase todo mundo: uma dificuldade poderosa de ficar sem fazer nada. Simplesmente contemplar as coisas. Refletir sobre nós mesmos. Não nos permitimos o ócio. Pegar uma sessão das 2 no meio da semana. Tomar um sorvete no parque no meio da tarde, sob a sinfonia natural da  passarada e das folhas tocadas pela brisa. Ou simplesmente fechar os olhos e pensar. Estamos sempre fugindo de nós mesmos. Fugindo de nós mesmos: claro que essa frase de gênio não é minha, mas de um poeta e filósofo romano chamado Lucrécio. Estóico. Sou fascinado pelo lema dos estóicos. Abstém-te e suporta. Em latim soa como um grito épico.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Parecer ocupado é considerado importante, mais do que estar mesmo ocupado. Na vida corporativa, isso chega a extremos de comédia. The Office, o maravilhoso seriado estrelado por Steve Carell, é mais real do que a gente possa imaginar. Quer rir, relaxar, esquecer os problemas? Alugue dvds de The Office. George Costanza, de Seinfeld, é outro mestre da simulação de atividade. Li numa revista que uma empresa de recolocação de executivos desempregados arruma para eles escritório e secretária para que finjam trabalhar. (E fujam de si mesmos, ocorre-me.)  Suspeito que tudo isso se encaixe no que Sêneca chamou de agitação estéril. Esqueça agora a empresa. Seu tempo é livre? Pois então você se sente compelido interiormente a ocupá-lo. Você pega o celular  e telefona à primeira pessoa que lhe venha à mente, mesmo que não tenha o que dizer. Ou então se instala em frente do computador e entra e sai de chats. Você sobe a escada. Depois desce. Todos nós fazemos isso. Subimos escadas e descemos como as formigas de Sêneca. Sem propósito. Apenas porque não conseguimos ficar sozinhos com nós próprios. Atenção. Eu sou uma formiga de Sêneca. Tenho consciência disso, e é um bom começo para tentar mudar.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Registro aqui o elogio do ócio, numa época de tantos movimentos por nada, de tanta agitação sem nexo. E penso, comovido, numa canção de John Lennon. Ouço-a mentalmente. Watching the Wheels. Olhando para as rodas. Ele dizia que as pessoas estranhavam vê-lo sentado, de olho nas rodas dos carros que passavam e passavam. “Apenas gosto de vê-las girar”, disse John. John Lennon nesse momento foi tão sábio quanto meu tio Fábio, quanto Sêneca, quanto todos aqueles que se insurgem contra a fuga automática e neurótica de si mesmos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title> O sábio está demasiadamente ocupadoEu tinha brigado com minha primeira namorada. (Pode também ter s...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Mon, 2 Jun 2008 16:55:03 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt; O sábio está demasiadamente ocupado&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Eu tinha brigado com minha primeira namorada. (Pode também ter sido com a segunda. Sempre posso estar enganado. É um direito legítimo de um escritor barato como eu. Balzac não poderia estar enganado. Tolstoi também não. Eu, sim. Mas chega de digressão.)&lt;br/&gt;Ela, a primeira ou segunda namorada, me dissera coisas que me pareceram pesadas. Eu estava arrasado.&lt;br/&gt;Tio Fábio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha, notou meu estado de espírito lamentável. Me perguntou o que acontecera. Respondi. Basicamente, disse que ela achava que eu não valia nada. Que jamais seria alguém na vida. Que era preguiçoso. Que minha ambição era desumanamente pequena. Que por isso meu futuro era menos promissor que o de um chiclete.&lt;br/&gt;Tenho que admitir que naquela tempestade de ofensas ela encontrou uma grande tirada, essa do chiclete. Ainda hoje, quando masco um chiclete, me lembro da comparação. De certa forma me vejo ali no chiclete mascado. (O tempo provaria que em muitas coisas ela acertara nos vaticínios sombrios. Mas não quero falar sobre isso aqui).&lt;br/&gt;Tio Fábio, com sua voz estentórea de Fred Flintstone, me disse que um dia eu entenderia que o importante não é o que as pessoas pensam sobre a gente. Mas o que nós pensamos de nós mesmos. A opinião alheia pesa muito mais sobre nós que nossa própria opinião.&lt;br/&gt;É engraçado. É patético. Somos vulneráveis, infantilmente vulneráveis ao que dizem e pensam de nós.&lt;br/&gt;Se nos elogiam, exultamos. Se nos criticam, ficamos deprimidos. O que nós mesmos pensamos sobre nós não interessa diante da opinião, da voz alheia. E então me ocorre uma conversa posterior de tio Fábio sobre o mesmo assunto. &lt;br/&gt;Sabedoria, quando alguém vem dizer que falaram mal de você, segundo tio Fábio, é responder que aquela pessoa maledicente não sabe metade dos seus defeitos. (Ele deve ter aprendido isso com suas leituras de mestres orientais. Ele foi um maníaco por orientais, fossem sábios ou gueixas.)&lt;br/&gt;Somos escravos da opinião dos outros. Achamos que eles julgam grande nosso nariz? Pagamos 5 mil reais por uma cirurgia plástica. Achamos que eles não gostam de nossas roupas? Vestimos as roupas que eles gostariam que nós vestíssemos. Achamos que eles só nos respeitarão se tivermos um carro novo e caro? Compramos. Vivemos, por paradoxal que seja, para os outros, não para nós mesmos. &lt;br/&gt;Você e sua namorada, ou namorado, por exemplo. Aposto que você, antes de fazer alguma coisa no relacionamento, pensa no que ela vai pensar a respeito de sua atitude. Não no que você vai pensar.  (Falei em aposta? Sou jogador de pôquer. Mas, estou quase desistindo. Minha tia Lili, blefadora compulsiva, tem me esmagado no jogo. Nem os conselhos de tio Fábio tem sido suficientes para me livrar dos blefes de tia Lili. Socorro.)&lt;br/&gt;Claro que não estou advogando o egoísmo. É o oposto. Estou simplesmente dizendo que o importante é que você se respeite, não que os outros o respeitem. E a gente faz coisas horríveis na tentativa desesperada de conquistar o respeito dos outros. Coisas que muitas vezes nos levam a perder o respeito por nós mesmos. (Alguém aí falou em filosofia barata? Mas o que mais se poderia esperar de um escritor barato? Raciocínios de Platão?)&lt;br/&gt;Se estamos acorrentados à voz alheia, sofremos frequentemente por um reconhecimento que não vem. Isso acontece na vida amorosa. E talvez mais ainda na vida corporativa. E então termino com uma frase que tio Fábio gostava de citar.  Confúcio, se não me engano. (Mas posso... bem, não vou repetir.) &lt;br/&gt;Mais ou menos assim: O sábio está demasiadamente empenhado em fazer coisas que lhe trarão reconhecimento para perder tempo esperando por reconhecimento.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Neste mundo em que tudo feneceUma mulher me esperava no restaurante. Ela sempre chegava um pouco ant...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Fri, 30 May 2008 15:47:08 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Neste mundo em que tudo fenece&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Uma mulher me esperava no restaurante. Ela sempre chegava um pouco antes; eu sempre um pouco depois. Fazia muito tempo que não a via, mas certos hábitos jamais se alteram. Vi que ela folheava um livro, acomodada numa mesa para dois. Ela sempre tinha um livro à mão para a hipótese de eu demorar mais que o razoável. O livro que ela lia naquele momento, vi depois, era uma pequena biografia de Marcel Proust sobre a qual eu escrevera numa revista. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Era Mariza. &lt;br/&gt;Ela estava de volta à cidade por uns dias para visitar a mãe. Mariza, depois que rompemos, conheceu uma fazendeiro de Mato Grosso. Logo se casaram e ela mudou para lá para viver seu novo amor bucólico.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“Tudo bem?”, perguntei.&lt;br/&gt;“Graças a Deus.”&lt;br/&gt;Rimos e o gelo se quebrou. Era uma piada particular nossa. Mariza é atéia. Ela jamais acreditou em Deus. Num certo momento, deixou de acreditar também em mim. Foi aí que nosso romance começou a terminar. Reencontros com amores passados servem para mostrar muita coisa. Mostram, por exemplo, como uma intimidade construída em anos pode ser dissolver instantaneamente com o rompimento. Você trata com cerimônia constrangida alguém com quem, até pouco antes, tinha a mais absoluta liberdade. Só falta a gente dar continência ao outro. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“A melhor coisa que você fez por mim, em muito tempo, foi indicar na revista este livro”, ela disse. “Sou realmente muito grata a você.” Era a Mariza de sempre, irônica, às vezes ferina mesmo num banal agradecimento pela indicação de um livro.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“Uma frase”, ela continuou. “Tem uma frase neste livro que talvez seja a mais linda que eu já li. E a mais triste também.” Ela me passou o livro aberto numa determinada página. Nessa página, uma sentença estava sublinhada. Mariza costuma sublinhar as frases de que mais gosta nos livros que lê. Eu tentei muitas vezes fazer o mesmo, mas minha falta de método jamais me permitiu consolidar esse hábito. Me impressionei ao saber que Vargas Llosa faz uma ficha de cada livro que lê. Pensei em copiá-lo, mas meu lado caótico me impediu.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Li a frase sublinhada por Mariza. Ela tinha razão. É uma das frases mais tristes que alguém já escreveu. Proust disse: “Nesse nosso mundo onde tudo fenece, tudo perece, há uma coisa que se deteriora, que se desfaz em pó até de forma mais completa, deixando para trás ainda menos traços de si do que a beleza: a saber, a dor”. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A dor. A dor da perda de um amor. A gente imagina que vai morrer sem ele. Como dói aquela ausência. Como dói a perspectiva de nunca mais ter nos braços alguém que a gente imaginava ao nosso lado para sempre. Nunca mais. E no entanto quando aquela dor torturadora se vai, vencida enfim pelo correr dos longos dias, o que sentimos não é alívio, mas vazio e frustração. É como se pensássemos: o grande amor exige uma dor eterna, um luto no coração até o último dia. Só que a dor, como disse Proust, dura ainda menos que a beleza. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Devolvi o livro a Mariza e trocamos de assuntos. O resto do almoço foi, quase todo, alegre. Lembramos certas passagens de nosso romance como na cena final de um dos meus filmes preferidos, Annie Hall, de Woody Allen, e rimos. Lembramos, por exemplo, o dia em que entramos por acaso numa festa de firma num bar do Terraço Itália e acabamos comendo mais, bebendo mais e rindo mais do que qualquer pessoa naquele salão. Lembramos a madrugada bêbada numa boate em que uma dama da noite recomendou compostura a Mariza. Quando Mariza ameaçou entrar em lembranças menos amenas, e delas extrair uma raiva que o tempo foi incapaz de mitigar, entendi que era a hora de pedir a conta. Certas histórias, é melhor não desenterrá-las, escreveu Shakespeare. Concordo.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;E então nos despedimos. Sem drama. Ela refizera sua vida e eu a minha. Ela voltava para Mato Grosso e eu para minha rotina de escritor barato. Um novo e promissor capítulo amoroso se instalara na vida de Mariza, e a verdade é que meu coração voltara a bater rápido, bem rápido, por uma mulher. Já não doía como doera nem nela nem em mim, mas ali compreendi com clareza que a morte da dor amorosa também pode, de uma forma estranha, doer. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Eu também vou estar ali, filhaNão sei se você vai ler isso,  filha. Você é tão menina, e acho que vo...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Tue, 27 May 2008 19:30:32 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Eu também vou estar ali, filha&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Não sei se você vai ler isso,  filha. Você é tão menina, e acho que você choraria se lesse isso hoje. Talvez outra hora. Vou fazer que nem aquele professor americano que, com os dias contados, deu uma aula de como morrer, e como viver, a uma platéia enlevada. A aula acabou no YouTube, virou um fenômeno mundial, e o professor disse que a primeira razão de ter feito o que fez foi mostrar aos filhos o quanto os amava. Ele disse que sua mensagem era como uma garrafa com palavras jogada ao acaso da água do mar. Talvez a garrafa seja encontrada e o conteúdo lido, talvez não. O que escrevo talvez seja lido por você, pedaço adorado de mim, talvez não.  Jogo dados com o destino, para usar uma frase de Einstein.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Fiquei tocado com o que você me disse outro dia, filha.  Não, não quero voltar a nascer, você disse ao entrar no carro na hora em que a busquei em sua avó. Você tão garota, e palavras tão profundas pronunciadas com a ênfase necessária, os pequenos olhos brilhantes molhados. Mas a voz firme. Imagino que alguém tivesse falado com você sobre reencarnação. Que eu poderia responder além de que eu também não? Nascer em outra família? Ter outro pai que não o que eu tive? Outra mãe? Outros irmãos? Outros filhos? Outros amigos? Outra filha que não você, pedaço adorado de mim?&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Não.  A idéia é insuportável para mim. E naquela conversa que tivemos vi que para você também.  Filha. Minha vida seria miseravelmente triste sem você. Não é que eu não queira outra vida. Eu desprezo, eu renego o que quer que seja que signifique viver sem as pessoas e os lugares que amo. Filha. O professor americano está morrendo, e tem uma filhinha pequena. Menor que você. Ela não entende as coisas direito ainda. Ele disse que quer que ela saiba, quando crescer, que ele foi o primeiro homem que se apaixonou por ela. Achei isso lindo, triste, é verdade. Mas mais lindo que triste. Uma declaração de amor sublime. A sensação de que foi tão amada pelo pai morto tão cedo haverá de dar força à pequena filha do professor na hora certa.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Filha. Eu também. Fui o primeiro homem a se apaixonar por você, e se há uma coisa certa é que nenhum outro a amará mais do que eu, por mais que a ame. Sua pequena mala. Quando ela está em casa o papai fica muito feliz. A cabeleira rebelde ruiva vai dominar e alegrar a casa. Um dia você terá idéia de como ver a seu lado as trapalhadas de Michael e Dwight, ou as de Joey e seus amigos, tornou a vida do papai melhor. O jeito furtivo como olho com adoração para você quando você está entretida com Michael. Se você um dia ler o que estou escrevendo,  queria que você levasse sempre essa imagem com você: meu olhar furtivo e amoroso para você. Gosto da forma sutil como você cobra minha atenção ao ver as comédias, quando ameaço pegar um livro ou uma revista, e gosto ainda mais quando você coloca seu travesseiro na barriga do papai e põe sua pequena cabeça dourada nele.&lt;br/&gt;Nada nos tirará isso, filha. Pode parecer bobagem o que estou escrevendo, mas o tempo vai mostrar a importância das nossas noites cômicas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mais para a frente vou colocar Rei Leão para vermos juntos. Lembro que você chorou na primeira vez, mas na segunda talvez a gente consiga alguma coisa além das lágrimas. Ali há uma lição, assim como na mensagem do professor que está morrendo. O ciclo da vida. Me ocorreu uma frase de um filósofo chamado Sêneca que levo sempre na mente. Ele estava escrevendo a um discípulo, Lucílio. “Por mais que te espantes, aprender a viver não é mais que aprender a morrer.” Passamos tanto tempo atormentados pela idéia da morte, esmagados pela finitude das coisas, que morremos mil mortes antes de finalmente morrermos. Este o sentido da frase da Sêneca. Espero que você um dia você leia Sêneca, filha. Viver sem o terror da morte é viver uma vida bela, não importa a quantidade de anos. É esse o ensinamento de Sêneca, e também o do professor americano.  As pessoas pensam que falar de morte é mórbido, mas não é, filha. O que na verdade faz mal é não falar de morte, como se ela não existisse. Se falamos dela, se a encaramos com naturalidade, vivemos uma vida boa. Se fingimos que ela não existe, somos esmagados pelo seu fantasma a cada dia.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A cena do Rei Leão que quero ver com você é aquela em que o Simba e seu pai contemplam do alto da montanha a imensidão do céu e as estrelas. De alguma forma estarei ali, sempre olhando por você, diz o pai a Simba com voz grave e firme, cheio de força e sabedoria. Eu também estarei ali sempre olhando por você, Camila, pedaço adorado de mim.</description>
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      <title>O homem menos gentil do mundoMeu amigo Thunder, com sua voz estentórea de Fred Flintstone, é um ilud...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Mon, 26 May 2008 13:47:43 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;O homem menos gentil do mundo&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;i&gt;Meu amigo Thunder, com sua voz estentórea de Fred Flintstone, é um iludido do amor. Como a Carrie de Sex and The City, ele marcha impávido, e derrotado, rumo ao amor perfeito. Recebi dele um email. Confesso que muitas vezes abandono os emails longos de Thunder pela metade, mas este me prendeu. Liguei para Thunder e ele aceitou que eu publicasse o texto aqui, desde que sua identidade fosse preservada. Aceitei. Ele achou que sua história poderia ajudar outros homens. Ei-la:&lt;/i&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“Algumas mulheres já me disseram que sou um homem gentil. Curiosamente, todas disserem isso antes de me deixar. Penso que é o mesmo raciocínio usado por alguns homens que dizem “Você é a mulher mais inteligente que conheci” antes de dar no pé. Mulheres inteligentes demais são problema. Pensam demais, discutem demais.  Quanto alguns homens fazem tal elogio estão na verdade apontando um defeito. De modo que comecei a acreditar que ser gentil era um defeito. Samantha, minha última namorada, recentemente andou jogando esta conversa de novo para o meu lado e pensei: mais uma que se vai.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Foi em um restaurante. O restaurante era condecorado, ela estava linda, com um vestido novo. Havia um clima festivo no ar e eu me sentia bem. No entanto, percebi que no decorrer do jantar o clima começou a pesar. Ela, de repente, ficou implicante, disse que queria ir embora e me apunhalou: “Você é gentil, mas não presta atenção”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Gelei. Lá vinha a história macabra da gentileza. “O que você quer dizer com isso, gentil? Não sou gentil, não”, defendi-me prontamente. “Você é, sim, não me venha com essa”, afirmou, como se me acusasse de ter devorado todo o chocolate da despensa. “Só que é gentil como os porteiros são, como manobristas são. É uma gentileza impessoal, asséptica.”&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Já tinha visto aquele filme. Era um filme sem legendas, falado em turco. Que diabos aquela mulher estava tentando me dizer? Samantha não brinca em serviço, seu recado era sério e eu não conseguia entender patavina. Ela detonou a bomba: “Hoje é nosso aniversário de namoro. Hoje, exatamente hoje. Te disse isso na semana passada”.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ela disse? Ela disse. Me senti miserável. Todos os anos era a mesma coisa. Ela me avisava um pouco antes e eu me esquecia logo depois.  Por que eu vivia cometendo esse ato falho? “É seu pavor com compromissos”, explicou-me didaticamente. “Você esqueceu a data e acha que não namora comigo há anos. “Ah! Meus Deus, lá vinha ela trazendo Freud para sentar conosco. Freud. Aqui. NÃO!, Samatha. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Este ano, tenho de admitir, ela vinha fazendo um trabalho de marketing já há alguns dias para evitar frustrações. Mostrou-me o vestido novo, falou-me deste restaurante... Meus Deus, como fui estúpido! Como pude esquecer e deixar-me flagrar nesse erro anual? “Samatha, por que você faz isso comigo?”, perguntei. “Por que você faz com que eu me sinta miserável?” Ela encarou-me com os olhos marejados, levantou as sobrancelhas em um último arroubo de orgulho e devolveu: “Por que você faz eu me sentir uma romântica ridícula e frustrada?”&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Tenho medo pânico de mulher frustrada. Ela é capaz de destruir tudo num raio de 100 quilômetros só com a amargura que carrega no coração. Não quero amar uma mulher frustrada, mas não quero me sentir incompetente o tempo todo.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Por que é tão importante que eu me lembre de uma data? Por que, afinal, ao abrir os olhos naquela manhã tão ilustre, ela apenas não me estalou um beijo e disse “Benzinho, é nosso aniversário”, em vez de me armar uma emboscada – na qual caio todos os anos? Lembrei-me de Fabio, um velho amigo, que diz que as mulheres sentem um prazer perverso em se fazer de mártires nos martirizando.&lt;br/&gt;E por que, finalmente, tenho de executar a fantasia romântica dela como ela quer? Para mim, aquele dia, fosse ele 12, 14 ou 31 de setembro, tinha todos os ingredientes para ficar gravado em nossa memória como uma noite inesquecível. Falhei em algum ponto do roteiro que ela tinha escrito. Mas ...  eu queria continuar no filme? Ou era hora de largar o papel?&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“Quer saber, Samatha?”, falei como que tomado por um novo espírito. “Você não vai acabar com a minha noite, de maneira alguma.” O espírito era de Humphrey Bogart. Freud tinha saído sem pagar a parte dele. Levantei o braço, fiz um gesto corajoso, viril e, considerada minha conta bancária, ligeiramente irresponsável: “Garçom, uma Veuve Clicquot”. Durão. Decidido.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Samantha  me olhou com um brilho novo nos olhos. Sorriu. Pegou na minha mão. “O que vamos comemorar?”, perguntou. “ Minha emancipação”, respondi triunfante. “Olha. Não presto atenção mesmo nas suas histórias porque você só fala de você mesma.” Ela ameaçou me esbofetear, mas fui mais ligeiro. Apontei a porta de saída. “Você ... você é o homem menos gentil do mundo, você é um troglodita, Thunder”, ela disse antes de se encaminhar para a saída.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Eu, o homem menos gentil do mundo? Deus, foi um dos elogios mais tocantes que recebi em minha vida. Pensei nisso enquanto joguei o conteúdo magnífico daquela garrafa de champagne goela abaixo.”&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Em nome do paiEu. Sei lá. Naqueles dias. Penso em mim mesmo lá para trás nas terras remotas e gelada...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Mon, 19 May 2008 10:59:48 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Em nome do pai&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Eu. Sei lá. Naqueles dias. Penso em mim mesmo lá para trás nas terras remotas e geladas do nunca mais, nunca mais, nunca mais, como escreveu Rubem Braga.  A imensa dor das coisas que passaram. Camões.&lt;br/&gt;Eu. Sei lá. Naqueles dias. Eu acreditava. Olha a minha foto. Meus olhos castanhos, quase alcançados pelos  cabelos loiros. Os olhos castanhos e grandes daquele loirinho. Eles eram olhos de Natasha. A Natasha de Tolstoi e de Guerra e Paz. Ninguém lê mais Guerra e Paz, não é? Mas Natasha. Talvez você queira saber por que a citei. Um trecho de Guerra e Paz. Pedro reencontra Natasha depois de alguns anos. Deus, como ele a tinha amado naquela Rússia sitiada pelas tropas napoleônicas e tão bem descrita por Tolstoi. Pedro a perde e depois a reencontra, mas demora para reconhecê-la, não porque ela estivesse mudada, ou porque era um lugar improvável para uma mulher pura como tinha sido Natasha. Ela tinha perdido o brilho dos olhos. Natasha não tinha mais os olhos de Natasha.&lt;br/&gt;Eu. Sei lá. Naqueles dias. Eu tinha olhos de Natasha. Olha. Aquela foto. O loirinho voltando do futebol. A sacola na mão esquerda. A camisa de mangas curtas aberta. Sorrido para a câmara de não sei quem. Uma foto em branco e preto. Minha mãe ama aquela foto, pelo filho feliz e por ela mesma, imagino. Minha mãe deve regressar no tempo ao ver aquela foto do menino futebolista. O futebol. Amei o futebol mais que a mim mesmo, e com uma bola vivi os dias mais felizes da minha vida, e ter deixado de jogar tão garoto por uma contusão cruel como um cossaco russo, ah, sei lá, eu podia ter passado sem essa. Olha.  Aquela foto. Depois do jogo. Eu era um menino que sonhava. Olhos de Natasha. Meus ombros eram muito estreitos para carregar a dor. Logo eu jogaria meu último jogo. O último. Mas ali. Naquela foto. Eu era feliz para sempre. Lol. Rio comigo mesmo agora. Minha perna esquerda, a única que eu sabia usar no futebol, não me traiu. Quem me tirou dos campos dos sonhos foi a perna direita.&lt;br/&gt;Eu. Sei lá. Naqueles dias. A Cristina. Loira, delicada, rosto redondo de alemã saudável. Camisa branca, saia azul de estudante. Nós estudávamos juntos, e na classe A. Minha escola. Eu era fascinado por resolver problemas de matemática. Achar o xis. Como achei o xis. Mas jamais encontrei o coração da Cristina. O diretor dividia as salas de acordo com o desempenho dos alunos. A Cristina e eu. Nós éramos, naqueles anos em que estudamos juntos, da classe A. Todos a amávamos. Ela era a menina mais linda da escola. E parecia não saber disso. A Cristina. Ela não vai ler o que estou escrevendo. E talvez seja bom. Uma viagem rumo aos dias em que foi rainha pode doer nela, e eu não gostaria de magoá-la.&lt;br/&gt;Eu. Sei lá. Naqueles dias. Meu pai. Meu pai já era a figura dominante na minha vida. Papai. Meu pai me inspirou na vida, na doença e na morte. A força invencível na adversidade. Marco Aurélio, o rei-filósofo, escreveu isso sobre um de seus mestres em suas Meditações. Meu pai. Papai foi grande para mim na presença, e ainda maior na ausência. Disse a você o quanto o amava, pai? Estou ouvindo agora uma de minhas músicas favoritas. Not Going Home Anymore. Nunca mais voltar para casa. Meu pai. Papai. Um dia ele nunca mais voltou para casa. E eu de certa forma também não. Olha. Aquela foto. Aquele menino feliz. Ele não voltou para casa quando seu pai morreu. Um perpétuo estado de desamparo, solidão e orfandade. Mas o menino. Ele foi adiante mesmo caído, combateu o combate ainda que de joelho. Em nome do pai.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;i&gt;Dedicado à memória de EMN&lt;/i&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Homem não choraVou tentar lembrar a frase de um sábio. Acho que era assim: as lágrimas dos fracos se...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Fri, 16 May 2008 16:42:39 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Homem não chora&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Vou tentar lembrar a frase de um sábio. Acho que era assim: as lágrimas dos fracos secam as minhas. Ele falava de como um homem deve se portar na adversidade. Como um homem, para resumir. Sem histeria feminina, sem se chacoalhar em desespero patético. Sem chorar. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Homem que é homem não chora. &lt;br/&gt;Uma pequena digressão: aquele filósofo não desabou moralmente nem quando recebeu a sentença de morte. Foi condenado ao suicídio. Os amigos e a quase viúva ficaram consternados. O suicida compulsório consolou a todos antes de cortar as veias. Seus olhos não ficaram nem sequer úmidos, segundo relatos de testemunhas. Ele exortou os que o cercavam a mostrar força, cortou as veias e partiu para a história. Sêneca é o cara.&lt;br/&gt;  &lt;br/&gt;Há na natureza uma sabedoria que convém respeitar. Infelizmente, a natureza é cada vez menos levada em conta, como se vê no pequeno grande crime que as mulheres cometem ao destruir a golpes de cera o que meu amigo Juan Iglezias, numa coluna numa revista masculina, chamou de Triângulo Sagrado. A natureza embelezou a mulher que chora. A fragilidade, a suavidade feminina são destacadas quando o pranto toma a mulher.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A vontade que se tem é de ampará-la, de protegê-la em nossos braços viris do mundo cruel. Muitas vezes essa vontade ingênua é seguida de um impulso nada ingênuo de teor sexual. Mas até aí pode haver poesia: ao penetrarmos a chorona como que sagramos sua salvação. Nada mais pode atingi-la. Somos então uma espécie de heróis rígidos. Já não há razões para a mulher chorar. É uma cópula redentora. Libertadora. Sem muito esforço, ela passa da tristeza à alegria genuína da fêmea possuída e protegida.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;  &lt;br/&gt;Com o homem é o oposto. Ao chorar, ele se descompõe. Fisicamente fica feio. A palavra mais adequada é outra: horrível. Tenho a tese de que, se o chorão se olhasse no espelho no momento do colapso moral, o mundo teria um número imensamente maior de homens firmes diante da adversidade. A natureza, ao tornar quase repulsivo o macho em pranto, estava dizendo que homem não chora.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O chorão não inspira piedade, não inspira ternura. Nos homens, ele desperta uma mistura de tédio e desaprovação. Nas mulheres - e aqui me refiro às normais, não às malucas com vocação doentia para enfermeiras e psiquiatras-, ele desperta aversão. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Apanhemos de pé quando a vida, como acontece com tanta freqüência, nos golpear. Se cairmos, combatamos de joelhos. Nada de faniquitos. Nada de lágrimas em profusão descontrolada. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Isso não quer dizer que nós homens não somos sensíveis. Sentimos, sofremos às vezes terrivelmente quando perdemos uma mulher amada ou um amigo também amado. (Outro sábio disse lindamente que a morte de um amigo o atirou numa noite fria e escura. Montaigne, sobre La Boétie, aos interessados.) Quer dizer apenas que podemos e devemos ser firmes, másculos, perante as dificuldades, os reveses tão comuns da sorte. Devemos ser homens, para simplificar. &lt;br/&gt;  &lt;br/&gt;Se chorei? Mais do que devia, com certeza. E com certeza também não são os momentos de que lembro com maior satisfação. Refrear as lágrimas, um esforço tenaz que tenho empreendido, verdade que longe das metas desejadas, é uma atitude não apenas macha. É também um gesto de elevação espiritual.  &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Heroísmo por trás da maquiagemEste é o título de um capítulo do mais recente livro de um historiador...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Wed, 14 May 2008 21:43:01 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Heroísmo por trás da maquiagem&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Este é o título de um capítulo do mais recente livro de um historiador inglês de que gosto muito, Paul Johnson. O livro se chama Heróis, e PJ fala de personagens tão diferentes como&lt;br/&gt;Churchill e Mae West. Mae West foi uma das mais brilhantes e bem-sucedidas comediantes de todos os tempos, e ao ver PJ falar dela me lembrei de um texto no qual afirmei que mulheres não são engraçadas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Bem, hoje estou convicto de que estava ... bem, estava certo. Mae West é uma poderosa exceção. Ela tinha um código de conduta extraordinariamente sábio. Transcrevo-o abaixo, e &lt;br/&gt;secretamente lamento que raras, raríssimas mulheres tenham o senso de humor de Mae West.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Coisas que nunca faço&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;1.	Tirar o homem de outra mulher. Pelo menos intencionalmente, quero dizer, embora no amor e na guerra valha tudo, e não seja pecado.&lt;br/&gt;2.	Ser outra coisa que não eu mesma o tempo todo, a não ser no palco ou na tela, pois é aí que começa a atuação.&lt;br/&gt;3.	Jamais cozinho, costuro, lavo pratos, descasco batata, como cebola ou rôo as unhas.&lt;br/&gt;4.	Usar meias de algodão branco ou entrar em um campo de nudistas&lt;br/&gt;5.	Jamais vou gostar de ópera, do Número Treze, cantar músicas tirolesas, espaguete frio, ratos, lesmas, homens que raspam o pescoço ou banana madura demais.&lt;br/&gt;6.	Preocupar-me com pessoas que assobiam no camarim ou passam cheque sem fundo.&lt;br/&gt;7.	Fazer papel de mãe, papéis tristes ou de esposa virtuosa, traída ou não. Tenho pena das mulheres fracas, boas ou más, mas não consigo gostar delas. A mulher deve ser forte na bondade e na maldade.&lt;br/&gt;8.	Ficar doida por música clássica, sanduíche, fumaça de charuto, lugares que cheiram a hospital e esmalte de unha preto.&lt;br/&gt;9.	Ficar excitada com boates, pontes retráteis, dança de leque, meias no tornozelos, a Bolsa de Valores, badminton ou macetes para aumentar o busto.&lt;br/&gt;10.	Morrer de emoção com orquídeas, cartas de amor anônimas, pastas de postais de suvenir, terremotos, braceletes de escrava ou cama de colchão duro.&lt;br/&gt;11.	Incomodar-me com prestamistas escoceses ou rapazes que ciciam.&lt;br/&gt;12.	Acreditar o pior de alguém sem prova completa, tampouco acreditarei que é inútil lutar contra a sorte – a falsa!&lt;br/&gt;13.	Andar quando posso me sentar, ou me sentar quando posso me deitar. Acredito em poupar a energia – para coisas importantes.&lt;br/&gt;14.	Escrever um conto sem sofisticação, porque acho que inocência não é o que a inocência faz.&lt;br/&gt;15.	Casar-me com um homem bonito demais, um homem que bebe demais ou não segura a bebida como um cavalheiro, um homem fácil de obter ou facilmente levado à tentação – a menos que seja eu quem o leve.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Trair a si próprio é a mais abjeta das traiçõesNão lembro onde li, outro dia, uma relação de casais ...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Sat, 10 May 2008 14:59:45 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Trair a si próprio é a mais abjeta das traições&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Não lembro onde li, outro dia, uma relação de casais marcantes das últimas décadas. John e Yoko estavam lá. Sempre agarrados. Até no estúdio durante as gravações dos Beatles, para total desgosto de Paul, George e Ringo. Nos ensaios da banda, que eram o momento de maior intimidade dos quatro, um espaço sagrado invadido por Yoko em sua sem-cerimônia de artista plástica vanguardistamente fracassada, Paul detestava vê-la encostada em seu amado amplificador. Lol. (Lá vou eu para mais uma de minhas intermináveis digressões: acho linda a expressão usada para determinar o período em que Lennon esteve separado de Yoko. Lost Weekend. Fim de Semana Perdido. Um fim de semana que, na realidade, durou mais de um ano, ao longo do qual Lennon viveu em Los Angeles ao lado de velhos amigos em históricas bebedeiras e brigas de bar e na companhia de uma jovem gostosa de ascendência chinesa, May. May trabalhava com eles, e dizem que Yoko a mandou a Los Angeles para dar sexo bom a John, mas mais que tudo para vigiá-lo.)&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Fim da digressão. Fora aquela interrupção, ou talvez mesmo no decorrer dela, John e Yoko pareceram sempre apaixonados. Muitas canções  de John tinham Yoko na letra. Eles apareciam até como parceiros em certas músicas. Em alguns discos de John, a gritaria desafinada de Yoko dividia espaço com a voz sublimemente desesperada, incomparavelmente sofrida de John. Lembro-me de uma foto do casal célebre, feita por Annie Leibowitz, a maravilhosa fotógrafa americana,  em que John apareceu nu e em pose fetal.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;E então me ocorreu o seguinte: John e Yoko são o pior modelo de casal que já apareceu desde Adão e Eva. Exagerei? Desculpem. É meu jeito superlativo de ser. Mesmo assim,  repito: eles são um péssimo exemplo. O pior que conheço. Vocês aceitam mais uma digressão? Existe uma crônica do grande Rubem Braga em que ele fala de um casal de velhinhos que passeava sempre de mãos dadas, para admiração comovida dos circunstantes. Diz Rubem: ele a detestava, ela o desprezava. (Pode ser também o contrário. Estou citando de orelha. Aliás: nem sei qual foi o sentido dessa citação. Aceito ajuda.)&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;De volta a John e Yoko. O que houve ali, na minha opinião, foi um lamentável caso de anulação do indivíduo. John se anulou quando se juntou a Yoko. Ele deixou de ser John Lennon para ser a metade de um casal. O indivíduo morreu. Em algumas ocasiões, ele assinou (ou eles assinaram) Lennono, a junção esquisita dos dois sobrenomes. E num disco o rosto de ambos se fundiu e o que dali resultou jamais poderia ser classificado de belo ou mesmo feliz.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Tio Fabio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha, uma vez me deu um livro de Aristóteles. Confesso que tremi diante da possibilidade de enfrentar as páginas intensamente cerebrais do grego e depois ser sabatinado por Tio Fabio e suas perguntas sagazes. Fiquei mais aliviado quando vi que havia uma página assinalada e, nela, uma frase sublinhada. Era mais ou menos o seguinte: a virtude está no meio. Tudo que Tio Fabio queria que eu soubesse de Aristóteles se resumia naquela sentença.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Também nas relações amorosas acredito que a virtude esteja no meio. Entregar-se completamente a alguém, como fez John Lennon, é um erro tão espetacular quanto não  se entregar nada. Nem dar tudo, nem dar nada. A virtude aristotélica é inspiradoramente  brilhante. Um casal deve dividir alegrias, angústias, posses, orgasmos e até peixinhos no aquário. Mas ninguém deve renunciar a ser o que é. Antes de sermos maridos,  namorados, concubinos ou o que mais for, somos nós mesmos. Com nossos pequenos gostos, nosso pequenos (ou grandes) vícios e virtudes. Quando deixamos de ser nós mesmos para agradar alguém, não somos mais nada. Trair a si próprio é a mais abjeta das traições.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Arrisco uma última (juro) digressão. O que teria acontecido com John se ele não se anulasse diante de uma mulher? Teriam os Beatles sobrevivido? Me ocorre a imagem grisalha dos quatro garotos ingenuamente bonitos de Liverpool tocando,  neste início de milênio, um rock cheio de rugas e gritando ié-ié-ié. Não, não, não. A morte dos Beatles talvez tenha sido a contribuição milionária de Yoko. A recompensa suprema pela anulação de John. Eu ia encerrar meu texto amaldiçoando Yoko. Mas termino abençoando-a, e cantando baixinho, estranhamente comovido, strawberry fields forever.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Depois do adeusEu confesso: não sou amigo de ex-namoradas. Ao contrário de outros caras, não faço o ...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Tue, 6 May 2008 23:39:18 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Depois do adeus&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Eu confesso: não sou amigo de ex-namoradas. Ao contrário de outros caras, não faço o menor esforço para manter a amizade de quem saiu da minha cama, dos meus pensamentos e da minha agenda. Não é por raiva, não é por mágoa, não é por revanche. É simplesmente por desinteresse. O elo que nos uniu foi rompido na separação. Aquela vontade de estar junto, de compartilhar as pequenas coisas do cotidiano, de trocar um olhar furtivo e cúmplice no meio da multidão perdeu-se. Não sobra base nenhuma em cima da qual construir uma relação de amizade. Quem já foi tudo para alguém é melhor que se transforme em nada, com a ruptura, e não em pouco.&lt;br/&gt;Não estou dizendo que se deva ser rude, tosco, bruto. Não advogo aqui que se vire o rosto para o lado num reencontro fortuito. Ou que se bata o telefone na cara ao ouvir aquela voz cujo timbre, poder e influência tiveram tanto significado para você. Também não prego que se lancem calúnias sobre ela e, embora seja grande a tentação, sobre ele, o novo homem. (Porque o novo homem é inapelavelmente um perfeito idiota, um canalha absoluto.) E acho uma tolice, na separação, pegar por birra, e só por birra, os livros e os discos que você sabe que são os prediletos dela. Tudo isso seriam provas de um espírito fraco, vingativo. O que recomendo, e pratico, é a indiferença. A indiferença pode ser natural, o que é a melhor opção. Ou pode ser também cultivada, caso a namorada perdida continue a ter presença em seus pensamentos. O que se deve evitar, enfim, é a continuação empobrecida, sem sentido e quase sempre hipócrita de uma relação que se acabou.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Por mais que se diga e que se finja que não, um homem só é genuinamente amigo de outro homem. O pequeno grande código da amizade não mistura homens e mulheres. Imagine dois amigos num bar, falando de futebol. Mais especificamente, do soberbo futebol que o Corinthians tem praticado nos últimos tempos. A descrição da série endiabrada de dribles do Dentinho é bruscamente interrompida quando uma mulher gostosa passa diante dos dois amigos. Ambos olham para ela, depois um para o outro, e então vem um sorriso que diz e resume tudo. E enfim se retoma a conversa paralisada: isso é o retrato da amizade entre dois caras. É impossível reproduzir essa situação quando se trata de um homem e uma mulher. Logo, não há chance de amizade. Eu citei uma situação clássica. Há dezenas de outras, que vocês conhecem tão bem quanto eu. E sei que o inverso é também verdadeiro: uma mulher só é realmente amiga de outra mulher. (Embora a inveja e a rivalidade entre as mulheres, em geral num grau acentuadamente maior do que o que se verifica entre nós, atrapalhem muitas amizades. Mas isso é problema delas, não nosso.)&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Uma relação entre um homem e uma mulher pode ser divina. Uma das maiores bênçãos que os Deuses concederam ao homem é estar dentro da mulher amada, unidos no corpo, unidos na alma, num lapso de tempo que, embora precário, se confunde com a eternidade. Uma dupla, metade masculina e metade feminina, pode formar um universo de enlevo, êxtase e inspiração. Mas a amizade fica de fora. Sejamos objetivos: o único amigo genuíno que uma mulher pode encontrar no gênero masculino é, até para reproduzir a situação clássica masculina, aquele que há de compartilhar com ela um olhar cúmplice de admiração quando irromper um homem considerado bonito.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>MulherzinhasPedro olhou para o relógio e viu que estava quase uma hora atrasado. Não ficou exatament...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Fri, 2 May 2008 13:06:36 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Mulherzinhas&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pedro olhou para o relógio e viu que estava quase uma hora atrasado. Não ficou exatamente preocupado. Pontualidade era uma virtude que ele estava longe de ter conquistado, e de resto as duas meninas que ele ia encontrar no Pirassanduba se entretinham muito bem sozinhas. Eram amigas, realmente amigas, daquelas que se telefonam de madrugada para dividir histórias de amor ou de desilusão, um dia de triunfo na redação do jornal ou de derrota para o chefe careta que insistia em mexer no texto jovem e irreverente de ambas. As duas, quando juntas, se olhavam com fixidez, como se nada lhes importasse além delas e do pequeno mundo jornalístico ao qual pertenciam. Poderiam ser tomadas como namoradas num primeiro olhar, lésbicas que por serem gostosas provocam nos homens um sentimento de perda e impotência, mas um segundo olhar revelava com inteireza duas fêmeas incapazes de ter interesse amoroso em outras fêmeas. Encaixe para elas era possível apenas com homens. Eram heterossexuais convictas, quase fanáticas, embora tivessem muitos amigos e amigas gays.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Era uma noite de fevereiro, daquelas em que as zonas boêmias de São Paulo parecem estar numa festa sem hora para acabar. Pedro, a caminho do bar em que as duas o esperavam, pensou no quanto amava São Paulo e seu caos majestoso e cosmopolita, diversidade gloriosa e bela de suas mulheres. Pedro nascera em São Paulo, e decidira morrer em São Paulo. Comprara um espaço no Getsemani, não por morbidez, mas para evitar surpresas póstumas desagradáveis. Quando estava fora de São Paulo, ansiava por voltar para a cidade como um garoto perdido num lugar desconhecido anseia por encontrar com seus olhos aflitos os da mãe.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pedro, ao chegar, pensou por um momento se não era melhor retroceder e as deixar entregues uma à outra, tão animadas pareciam em sua conversa de mulherzinhas. Pamela, Pam, usava um vestido curto e colorido, “klimtiano”, como ela dizia. Pam pintava nas poucas horas vagas que a rotina dura de uma redação libera, e Klimt era sua maior inspiração. Fizera balé muitos anos, e gostava de dançar Madonna exatamente do jeito que Madonna dança. Uma amiga fotógrafa fizera fotos em que ela aparecia provocativa, lascivamente bonita, e Pam revia suas imagens nuas sempre que se sentia insegura sobre sua beleza. Pedro riu sozinho ao pensar na Pam da sanduicheria e na Pam de The Office. Via sempre The Office antes de dormir para relaxar e melhorar as chances de um sono bem-humorado. Pam, a de The Office, ganhando o prêmio anual  do seu escritório pelos tênis mais brancos da temporada, e completamente bêbada acenar sua estatueta e fazer agradecimentos como se fosse um Oscar, esta sua cena favorita de Pam.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Fernanda, Fê, usava jeans e camiseta branca básica. Viera a São Paulo de Ribeirão, onde morava fazia algum tempo. Ao subir no ônibus vira um velho cantor, e temeu que ele se sentasse a seu lado no ônibus. Sentou-se. O cantor estava alto, e logo caíra num torpor etílico que levou sua cabeça grisalha a desabar nos ombros acolhedores dela. Fê, como Pam, era morena e atraente, e ainda assim sonhava com uma lipo que lhe tirasse rapidamente alguns quilos que ela tinha preguiça de eliminar com ginástica rotineira. Tinha um blogue literário cheio de comentários.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;As  jornalistas de minha geração eram menos vaidosas, refletiu Pedro. Quase todas pareciam ter raiva da beleza, como se olhar para o espelho e usar um batom fosse um sinal desprezível de frivolidade, e seu desejo maior não era sexual, mas sim político. Derrubar a burguesia. Pam e Fê queriam ouvir a opinião de Pedro sobre um projeto literário. Queriam escrever em conjunto um romance, em forma de cartas, sobre a mulher de 30 anos. Seu mundo, seus sonhos e ilusões, suas fantasias e inseguranças. Eram mulheres formadas sob a inspiração de Carrie e suas amigas de Sex and The City, fêmeas sitiadas por homens egoístas e avessos a qualquer compromisso sério. Influenciadas por histórias que não resistem a uma escova de dentes no gabinete do banheiro.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pedro gostou. Achou a idéia original, e se lembrou de alguns romances clássicos escritos na forma de diálogos, dos quais o que mais lhe agradava era Relações Perigosas. Tinham escrito alguns capítulos, e passaram a Pedro para que ele os analisasse. Pedro folheou as páginas, e sorriu ao ver na última delas uma nota de agradecimento de Fernanda em sua letra de normalista. “Obrigado por ter chegado aqui”, estava escrito. Era um gesto típico, delicado e surpreendente, de mulherzinhas.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Tomaram os três algumas garrafas de Stella, e comeram sanduíches. Pedro escolheu um Pepe Legal, e ficou satisfeito. Pedro não podia ficar muito tempo. Tinha um outro compromisso, um  show de sua banda favorita paulistana em outro bar ali na Vila. Terminou o sanduíche, pegou as primeiras páginas do romance de Pam e Fê e aceitou, sem insistir muito, que elas ficassem com a conta. A vida de um jornalista frilancer como ele não era tão fácil assim financeiramente. Pam, com seu vestido klimtiano, beijou-o involuntariamente perto dos lábios, e ele ficou momentaneamente perturbado. Fê deu-lhe um sorriso confiante de jovem escritora que acredita que seus leitores haverão de aparecer um dia, nem que seja daqui a 25 anos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Pedro deu alguns passos em direção à escuridão paulistana, e depois se virou para um último olhar para as duas amigas. Elas conversavam alegremente. Pedro parecia ter sido apenas um parêntese no encontro de duas amigas que se amam, e que são capazes de ligar uma para a outra alta madrugada para falar de uma primeira saída incrível com um cara legal. Eram bonitas, divertidas, espirituosas, riam do mundo e uma da outra. Pedro sorriu, como se tivesse ouvido a melhor tirada de uma delas, e depois retomou sua marcha desajeitada  rumo à escuridão da cidade que ele tanto amava, um vulto solitário como os de Hopper, o grande retratista da solidão americana, errando pelas ruas da São Paulo em que ele nascera, crescera, sonhara, se desiludira e haveria de morrer.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>O ÚLTIMO REDUTO DO MACHO“ Um homem só é feliz ao lado de uma mulher se é dele o controle remoto.” Fo...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Wed, 30 Apr 2008 20:02:00 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;O ÚLTIMO REDUTO DO MACHO&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;“ Um homem só é feliz ao lado de uma mulher se é dele o controle remoto.” Foi o que me disse outro dia meu amigo Guillermo. Guillermo foi vítima da Mulher Exigente.  Alessandra, sua namorada, transformou-o num escravo. Ela escolhia os filmes no cinema, os DVDs, as peças de teatro. Ela escolhia os restaurantes, as viagens, os hotéis. Ela escolhia as posições sexuais e as preliminares. Aliás, demoradas e extenuantes mesmo para uma pessoa atlética como Guillermo.&lt;br/&gt;E a morte: ela não lhe dava a menor chance de pegar o controle remoto.&lt;br/&gt;A Mulher Exigente não é uma espécie exatamente nova. Na Bíblia, você encontra muitas delas, como Betsabá, que mandava no rei Davi, que mandava em todos. (Para tê-la, Davi enviou o marido de Betsabá à frente de uma guerra. O objetivo era que ele morresse, o que logo aconteceu.) A Mulher Exigente, repito, não é novidade. Mas o fato é que, nos tempos recentes, com o avanço feminino em todas as áreas, do escritório ao futebol, ela se multiplicou espantosamente.&lt;br/&gt;A Mulher Exigente parece se vingar, em cada homem, da dominação masculina secular. O homem não é um parceiro, um cúmplice, a metade de um todo. O homem é o concorrente a ser batido. Como uma gladiadora sem direito a férias nem fins de semana, a Mulher Exigente está em combate o tempo todo. Ela quer espaço, mas não em pedaços. Ela quer todo o espaço.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A Mulher Exigente despreza o avental e a cozinha. Despreza sua mãe, sua avó e todas as antepassadas que se curvaram ao pérfido domínio masculino. Despreza o homem. No fundo, a Mulher Exigente prefere um vibrador a um macho, porque é mais fácil de manejar. A frase masculina que mais a excita sexualmente, dita num timbre tímido e amedrontado, é: “Posso?”&lt;br/&gt;  Ela não fala, grita. Ela não pede, manda. Ela não cede, impõe.&lt;br/&gt;E ela, paradoxalmente, é nossa cria. Nós inventamos nosso inimigo. Nós a demos à luz. Nós e nossa covardia culpada. Porque nós nos sentimos culpados por ser homens e mandar, desde sempre. Nós caçávamos os javalis enquanto elas ficavam no conforto aquecido da caverna, nós nos expúnhamos ao frio e aos dentes da fera e, mesmo assim, carregamos um sentimento de culpa que se refinou ao correr dos longos dias e foi dar na proliferação da Mulher Exigente.&lt;br/&gt;Somos vítimas não da Mulher Exigente, mas de nós mesmos.&lt;br/&gt;Viramos subalternos, ganhamos a docilidade pétrea de recrutas perante generais. Nos transformamos em pó. Somos chicoteados e agradecemos ao chicote e à mão que o empunha pela deferência em nos escolher como alvo.&lt;br/&gt;A queda da Bastilha selou a Revolução Francesa. Entendi, pela expressão aterrorizada de meu amigo Guillermo, que a Bastilha de nós, homens, é o controle remoto. Ao perdê-lo, perdemos tudo. É o último reduto do homem que não se rende, a sua Excalibur. A derradeira esperança, a tocha trêmula numa escuridão espessa.&lt;br/&gt;A Mulher Exigente vai mandar você deletar este texto.&lt;br/&gt;E você vai deletar.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Os melhores anos de minha vidaHá uma cena num romance de John Updike que me comove. Updike é um dos ...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Sun, 27 Apr 2008 22:31:53 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Os melhores anos de minha vida&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Há uma cena num romance de John Updike que me comove. Updike é um dos maiores romancistas contemporâneos, e seus livros têm sempre uma sexualidade intensa e elegante. Mas o trecho a que me refiro não tem nada de lascivo. É a morte de Harry Angstrom, o Coelho. Harry fora um astro do basquete universitário e levou as marcas disso até seu último dia. Ele jamais lidou bem com a idéia de que seus dias de celebridade tinham passado e que agora ele era um simples revendedor de carros japoneses. Acima do peso, colesterol alto, um casamento monótono como sermão de padre espanhol ou conversa de advogado. A morte como que o redime. Já na casa dos 60 anos, com o coração combalido, ele um dia está andando e vê alguém jogar basquete na rua, uma cena comum nos Estados Unidos. Ele não podia se esforçar, por causa do coração, mas entra no jogo. E morre. Na morte, ele afinal se reencontra com o que de melhor houve em sua vida. O basquete, os tempos jovens e sonhadores em que as coisas tinham um significado maior que vender carros da Toyota e arrastar um casamento enfadonho.&lt;br/&gt;Júlio César, o imperador romano. Ele disse que a maior dádiva que os deus podem conceder a alguém é uma morte rápida. Os deuses a concederam ao Coelho, e como bônus lhe deram uma última cesta.&lt;br/&gt;As lembranças mais potentes que carregamos são as da juventude. É quando temos coragem, embalamos sonhos, acreditamos em algo além de uma carteira cheia de dinheiro e cartões de crédito. O tempo nos tira a ousadia, a petulância, a fé cega que nos faz crer que nenhum obstáculo é intransponível, escreveu Cícero, o maior orador que a humanidade gerou.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ao crescer, diminuímos.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;As tentativas desesperadas de rejuvenescimento explicam-se nessa diminuição. O homem que faz implante de cabelo, ou se submete a uma cirurgia plástica para tirar rugas, ou passa a andar com mulheres bem mais jovens, ou engole Viagras, ou faz tudo isso e outras coisas mais, esse homem não busca a aparência perdida.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Ele busca, na verdade, a alma perdida. Ele procura, perplexo, a si próprio. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Foi o que fez Harry Angstrom ao correr atrás de uma bola de basquete que podia matá-lo. Uma bola gloriosamente, mortalmente redentora. Ao pensar em Harry e o basquete, me ocorrem o futebol e eu. Nada me fascinou tanto, na vida, como uma partida de futebol. Fui um pequeno astro na adolescência, mais ou menos como Harry. Uma contusão acabou aos 15 anos com meu sonho de ser jogador de futebol.&lt;br/&gt;Desloquei o fêmur esquerdo. Epifiólise. Jamais esqueci o nome técnico do mal que me tirou dos gramados que tanto amara. Lembro do cheiro da grama recém-cortada ou molhada como do perfume da mulher amada. Não sei se alguma desilusão amorosa, posteriormente, teve o mesmo impacto da dor de meu sonho infantil destruído. Durante um bom tempo, nem sequer ver futebol na televisão eu conseguia. Como doía, Deus, como doía. A bola para sempre perdida. Um sentimento de fracasso, impotência,  melancolia. Desespero. Eu nascera para ser jogador, e aos 15 anos era como se minha vida tivesse perdido o rumo e o sentido.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Lembro meu último jogo na categoria para garotos. Mirim. Eu chegara ao limite da idade. Um empate nos classificava, mas uma falha do goleiro nos eliminou. No carro, a caminho de casa, meu pai me disse: “Você vai se lembrar desses anos como os melhores da sua vida”. Ainda agora parece que ouço, com clareza, suas palavras. Lembro o ponto exato da cidade em que ele disse cada sílaba. Logo depois disso, o fêmur me traiu.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Foram mesmo os melhores anos de minha vida. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Papai estava certo. Minhas fotos naquela época mostravam um menino loirinho, olhos arregalados e brilhantes como os de Natasha, uma bola sempre por perto. Nunca estivemos tão ligados, meu pai e eu, como naqueles dias de futebol. Me pergunto agora o que amei mais naquela época: a bola ou a intimidade intensa com meu pai? &lt;i&gt;Oh God I miss him so much&lt;/i&gt;, o verso daquela canção tão bonita de Elton John e Bernie Taupin me ocorre agora ao pensar em meu pai. Talvez um dia, como aconteceu com Harry, apareça uma última e redentora bola na minha frente. Deus, como gostaria de repetir o gesto maravilhosamente irresponsável do velho Harry e chutá-la, uma última e definitiva vez, como o Coelho, e partir como ele depois de um fugaz reencontro com os melhores dias de minha vida, como o Coelho,  nós dois que fomos jovens astros de esportes diferentes, e depois desabamos cruelmente, e para sempre, de nossas ilusões. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Thunder trocou o pneu furadoMeu amigo Thunder achava que tinha encontrado o amor de sua vida. Tereza...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Fri, 25 Apr 2008 09:25:14 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Thunder trocou o pneu furado&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Meu amigo Thunder achava que tinha encontrado o amor de sua vida. Tereza, dizia ele, era perfeita. Repórter da seção de cultura de um grande jornal. Bonita, loira de cabelos que escorriam quase até a cintura, sexualmente petulante, inteligente. Falava de Proust, de Almodóvar e de artes marciais, e não recusava as fantasias de Thunder. Piercing no seio, que ela dizia deixá-la em estado de contínua excitação, tatuagem de golfinho na virilha esquerda. Tudo bem que Thunder é uma gangorra sentimental, sempre à procura da mulher perfeita, mas sua descrição de Tereza me fez acreditar que aquela história duraria pelo menos algumas semanas. Não durou mais que dez dias. Quando Thunder me disse por que tinha demitido de sua vida uma mulher tão sensacional como Tereza, vi que ele tinha toda razão.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Tereza era a Mulher Tagarela.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Um homem suporta muitas coisas. Dor de dente, congestionamento, jogadores mercenários. Pedágios que se multiplicam, Claudia Leitte e Ivete Sangalo, o mosquito da dengue. Filas.  Sogras, juízes de futebol, supermercados sábado pela manhã. É incrível a resistência do homem às calamidades.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;O que não dá para suportar é a Mulher Tagarela.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Tereza, me disse Thunder, era uma Mulher Tagarela. Seu assunto favorito, como sempre acontece nesses casos, era ela mesma. Tereza se julgava uma eterna manchete. Contava suas histórias com entusiasmo barulhento. Seus olhos se arregalavam ao falar de si própria. Não havia pausa, não havia brechas pelas quais o pobre Thunder conseguisse deter o vulcão verborrágico da loira espetacular. “Tudo bem que a mulher fale antes e depois do sexo”, me disse Thunder em sua estupefação tola. “Mas durante fica difícil. Não estou falando de conversa sexual. Ela me contava coisas como o elogio que tinha recebido do chefe, e de como tinha sido merecido. Uma vez ela me falou como tinha roubado o namorado rico e poderoso de sua irmã. Uma outra vez ela abriu os olhos subitamente e me disse se podia me fazer uma pergunta. Eu disse sim, e ela perguntou se eu podia trocar o pneu furado do carro dela. O pior é que troquei imediatamente.”&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A Mulher Tagarela não tem limites. Simplesmente detesta ouvir. Depois de escassos segundos de aparente atenção, você nota em seus olhos fugidios que ela não esta ouvindo. Seus pensamentos estão na verdade voando em torno dela mesma. Nada do que você faz é capaz de prender o interesse da Mulher Tagarela. Por isso ela não tem amigas e nem amigos. É amiga apenas de si mesma. Thunder é um jornalista aspirante a escritor. Contou empolgado a Tereza que uma editora de livros tinha decidido publicar o seu primeiro romance. O primeiro romance publicado de um aspirante a escritor é mais importante que o primeiro sexo ou que a primeira vez que dirige um carro. Ela bocejou e pediu a ele que fosse buscar um copo de água para ela. Metade gelada, metade natural. Estava com sede. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Foi quando Thunder desistiu. Não sem antes, é verdade, ter providenciado o copo sob medida de água para Tereza.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Thunder queria o básico. Nada além do básico. “Ela não precisava nem ler o manuscrito”, ele me disse. “Bastava pedir uma cópia e depois dizer que tinha achado alguns trechos legais.” Nos poucos dias em que estiveram juntos, Thunder conheceu compulsoriamente toda a história de Tereza. Detalhes em geral pouco animadores de seus namorados passados. Johnny falhara algumas vezes. Lúcio tinha ejaculação precoce e se recusava a enfrentar a verdade e procurar um médico. Danny Boy gostava de vê-la com outro cara na cama. Edu, com certeza, não escovava os dentes. Tavito nunca tinha lido um livro, era um burro. Bruno achava que Sergio Leone era um jogador de futebol do Milan.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A Mulher Tagarela só tem palavras positivas para ela mesma.&lt;br/&gt;Apenas uma espécie se compara a ela.&lt;br/&gt;É o Homem Tagarela.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>Álbum de casamentoEstamos vendo o álbum de casamento de meu irmão Jose. Me vejo em algumas fotos na ...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Mon, 21 Apr 2008 22:35:53 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Álbum de casamento&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;Estamos vendo o álbum de casamento de meu irmão Jose. Me vejo em algumas fotos na igreja, mas não na festa num sítio próximo de São Paulo. Digo a minha cunhada, que me mostra o álbum, que naquele dia tive um compromisso profissional, e ela concorda. Depois me lembrei que na verdade tinha um jogo de futebol no campeonato do clube, mas achei melhor que ela considerasse o importante compromisso profissional do jovem cunhado jornalista.&lt;br/&gt;Quantas pessoas queridas nas fotos, e quantas já mortas. Mas aquele foi um dia feliz, A Perfect Day, como cantou Lou Reed. Meu pai, por exemplo. Ele estava tão alegre. Poucas curvas adiante meu pai estaria morto, e uma família feliz como a nossa teria para sempre uma ausência dolorida, cortante, num certo e prolongado momento dilacerante. Nós nos amávamos tanto, nós sete, meus irmãos e meus pais, e jamais nos acostumamos por inteiro a ser seis. Diminuímos em número, diminuímos na alma.&lt;br/&gt;Estou sem namorada naquele casamento. A mulher que me acompanha em algumas fotos era uma velha tia solteira, neurastênica, reumática – e incrivelmente maravilhosa. Ela me ensinou a jogar buraco, e ficou para mim gravado eternamente o estilo simples com que ela manobrava suas cartas. Canastra suja, poucos jogos, e a batida que surpreendia os adversários cheios de cartas e sonhos frustrados. Numa outra vez escrevi que aquela minha tia foi a única pessoa que acreditou que eu vomitei a noite toda num verão em Ribeirão Preto por causa de amendoins e não por causa de sucessivas batidas de pinga. Foi meu primeiro e inesquecível fogo, aos 16 anos, e pelo resto da vida minha tia me recomendava extremo cuidado com amendoins.  A Tio Julio, menos crédulo, bastou aspirar uma vez o ar do quarto em que eu estava. “Isso é cachaça pura”, disse em sua voz estentórea de Fred Flintstone. Tio Julio rasgava o baralho quando perdia um jogo de buraco, e depois andava pelas ruas de Ribeirão em busca de um bar aberto para comprar um copag. Tio Julio não gostava de perder jogos de xadrez para mim. Naquele tempo eu lia livros de xadrez, e estudava partidas ilustres.&lt;br/&gt;Não vejo Tio Julio no álbum de casamento de meu irmão. Não deve ter tido jeito de vir de Ribeirão a São Paulo, imagino. Uma foto. Me detenho numa foto na festa. Os amigos, vários deles, uns de pé, outros abaixados como um time de futebol. Ah, éramos jovens, éramos jovens, como diz o último trecho de Os Maias, no qual os amigos Carlos e Ega erram pelas ruas de Lisboa e lembram os dias de sonhos construídos e destruídos. Não estou na foto,  e me detenho em cada um dos rostos de garotos dos meus amigos. Ali o Minhoca, adiante o Belisco, agachado o Banus, e alguns outros chapas.  Um deles não reconheço imediatamente. Pergunto a meu irmão Jose quem era.  Ele olha por alguns momentos, respira fundo e diz: “O Eduardinho.” &lt;br/&gt;O Eduardinho. O Edu. Está de pé naquela foto. Talvez o único entre todos que não tenha um sorriso forte no rosto. Parece preocupado, o Edu, o Eduardinho. Olha sério para a câmara. Parece um goleiro na foto oficial de um jogo nervoso e decisivo. Lembro de um casaco preto de couro do Edu. Era o máximo. Jamais tive um tão bonito. O Edu parecia preocupado. Sei lá. Poucos anos depois o Edu estava num caixão. Arrumara uma briga num bar. Eu não disse, mas o Edu era valente. O cara pegou um revólver e descarregou no Edu. E O Edu estava armado apenas com seus braços finos e atrevidos, e não tinha outros escudo que não seu casaco de couro preto.&lt;br/&gt;Nós amigos fizemos, jovens ainda, uma das coisas mais tristes  que existe na vida de um homem. Carregamos seu caixão, e dissemos entre nós lembranças do Edu que nos aqueceram num dia gelado enquanto ele era enterrado. A Perfetc Day. Do avesso. E eis que aparece ali aquela foto do álbum de casamento do meu irmão Jose, e nela o Edu, o Eduardinho, que não nos acompanhou na caminhada de beleza miserável por essa terra tão fugidia, e era valente e tinha um casaco preto como eu jamais tive e nem terei. O Edu, aquele ali de pé no canto, o único que não ri para a câmara, o Eduardinho.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;i&gt;Dedicado à memória de Eduardo Bueno&lt;/i&gt;</description>
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      <title>Felizes para sempreTolstoi disse que as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes são i...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Thu, 17 Apr 2008 00:52:24 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;Felizes para sempre&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Tolstoi disse que as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes são infelizes cada qual a sua maneira.  É uma frase célebre, e que abre Anna Karenina, um dos maiores romances jamais escritos. E lá vou eu para uma digressão:  Anna é, ao lado de Capitu, de Machado de Assis, a adúltera mais fascinante da literatura. As duas se entregaram: Anna,  ao ficar em estado de choque quando seu amante nobre, Vronski, caiu do cavalo numa corrida. Capitu, ao mostrar dor maior que a da viúva no velório do amante, Escobar, melhor amigo de seu marido. Anna terminou sob as rodas de um trem, num suicídio.  Capitu, de olhos oblíquos e dissimulados, foi repudiada pelo marido e morreu solitária no abandono europeu. Nem Tolstoi nem Machado trataram bem suas formidáveis adúlteras. Um filósofo escreveu que é mais fácil não começar do que terminar. Para as duas, teria sido definitivamente mais fácil não começar uma história fora do casamento.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Mas não. Não era sobre isso que eu ia falar. Era sobre as famílias infelizes. Elas não nascem infelizes quase nunca. São felizes,  e um simples fato ao acaso as faz infelizes.  Penso neles, na família Brandão. Minha mente recua alguns anos, e ali os vejo. &lt;br/&gt;Brandão, a mulher e as duas filhas. As garotas são lindas e têm uma característica que multiplica o encanto da mulher bonita: elas parecem não se dar conta de sua beleza de fazer bispo olhar para trás e chutar poste.  As filhas do Brandão, no seu apogeu, eram lendas em vida no seu círculo. Admiradas, cobiçadas, amadas por, bem, todos nós.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Era uma família feliz. Casa bonita, o pai bem colocado, a mãe vigorosa e enérgica, e filhas que, bem, filhas que deslumbravam. Um dia, uma delas, a mais velha, olhos verdes como as águas ao entardecer do mar de Salvador, errou na dose de alguma droga e perdeu a razão para nunca mais recuperá-la. A família feliz se tornou infeliz para sempre. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Vi isso de perto. A filha caçula fez o chão tremer para mim. Já escrevi aqui que, segundo Hemingway, três vezes o chão treme na vida dos apaixonados. Não mais que três. Está lá, numa das passagens de Por Quem os Sinos Dobram, um romance quase tão bom quanto Anna Karenina. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;A caçula dos Brandão fez o chão tremer para mim. Às vezes me pergunto se também fiz o chão tremer para ela, mas é apenas um devaneio sem sentido. Talvez sim, talvez não. Rio agora do choro tolo e convulsivo que me tomou quando a perdi. Os anos me tornaram um cínico amoroso, reflito. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Perdi o contato com a família. Soube há pouco que a mãe das garotas morreu. Quase ninguém foi avisado. Estou aqui com o número do celular da caçula. Não sei se terei coragem para ligar. De resto, para dizer o quê? Que lamento as ruínas do mundo em que ela foi uma jovem rainha? Que na minha memória a felicidade da família jamais foi perdida?&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Sêneca. &lt;br/&gt;Sêneca, meu filósofo favorito, falou no perpétuo vaivém de elevações e quedas. De como é sábio se preparar para isso. A vida é feita de elevações e quedas. No campo pessoal, profissional, amoroso. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Eu queria tanto reagir com sabedoria à queda da família Brandão. Mas não consigo. E então subverto a realidade aqui nesta página. E crio, como num sonho bobo, um final em que nada destruiu a felicidade daquele quarteto que tanto admirei e amei. No momento em que ia tomar a dose que a enlouqueceria, a mais velha decidiu, como um samurai, como o maior deles, Musachi, combater o vício com a espada da determinação. Derrotou-o gloriosamente. O pai, a mãe e as duas filhas: ali estão os quatro, na varanda floreada em que recebiam os que chegavam encantados como eu, sorridentes como diante de um fotógrafo. Felizes para sempre. &lt;br/&gt;&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;</description>
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      <title>“As mulheres não são engraçadas”Acabei de ler a última Vanity Fair. Para muitos é a melhor revista d...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</link>
      <pubDate>Sun, 13 Apr 2008 19:20:50 BRT</pubDate>
      <description>&lt;base href=&quot;http://www.ohomemsincero.globolog.com.br/&quot;&gt;&lt;b&gt;“As mulheres não são engraçadas”&lt;/b&gt;&lt;br/&gt;Acabei de ler a última Vanity Fair. Para muitos é a melhor revista do mundo. Americana. A capa é uma resposta a um ensaio feito por um provocador brilhante chamado Christopher Hitchens: “As Mulheres Não Têm Graça”. Ele dizia que o cinema jamais produziu comediantes mulheres notáveis, e nem a televisão, salvo uma ou outra exceção, como Lucille Ball. O feminismo fez mal para o humor feminino. Hitchens nota também que as mulheres, ao contrário dos homens, lidam mal, amargamente, com os sinais de decadência física. Os homens fazem disso graça, e as mulheres se atormentam. O artigo de Hitchens, bem como a resposta, está em www.vf.com.&lt;br/&gt;A capa da edição que acabo de ler afirma: “Quem Disse Que as Mulheres Não Têm Graça?” Uma capa soberba, foto de Anne Leibowitz, uma das melhores fotógrafas do mundo. (Alguém conhece aquela capa da Rolling Stone em que Lennon, nu, aparecia em posição de feto na cama ao lado de Yoko? Anne Leibowitz.) Três comediantes jovens na capa, mulheres, e uma delas segura delicadamente o seio esquerdo de outra.  Esta a noção feminina de graça? Only in America. Só nos Estados Unidos.  Nós homens temos outro nome para isso. Lol. &lt;br/&gt;O texto se esforça, mas a única mulher realmente engraçada que a VF conseguiu encontrar foi Jenna Fischer, de The Office. Verdade. Ela é muito engraçada. The Office é uma série incrivelmente espirituosa, e Jenna Fischer é um de seus pontos altos. Aquele chefe. Steva Carell. O cara é absolutamente divertido. Você ri só de olhar, como acontecia com Jerry Lewis. Ou com Jim Carrey. Homem.  Liz Kudrow, de Friends, é ótima. Ok. Concedo. Mas a lista das comediantes mulheres não preenche os dedos de uma mão.&lt;br/&gt;Certo. Você vai dizer: poxa, mas eu sou engraçada. Meu namorado ri de quase todas as minhas piadas. Por exemplo aquela que ...  Tudo bem. Também me acho divertido. relativamente. Jamais pensei em ser comediante, mas já sonhei ser roteirista de seriado divertido como Friends ou Seinfeld. Então. Sou engraçadinho, acho. Mas não é na pessoa física que estou pensando. É na pessoa &quot;pública&quot;. Gente que faz rir por ofício.&lt;br/&gt;&lt;br/&gt;Penso no Brasil. Que comediante talentosa a TV brasileira produziu? E o cinema? E a imprensa? Na imprensa os humoristas de gênio: Péricles, alguns caras do Pasquim, Zé Simão, Chico Caruso. Homens.  Hitchens está certo. Levante a mal, e atire pedras, mas só com argumentos e mais que isso nomes, quem tiver outra opinião. Ah, sim. Tenho que dizer que as mulheres possuem tantos, tantos atributos únicos e incomparáveis – ah, sua beleza, sua suavidade, seu andar, e seus decotes de fazer bispo olhar para trás e chutar o poste -- que podem muito bem passar sem o incrível senso de humor típico de nós homens. Lol. Laughing outloud, lol, como a gente escreve abreviadamente nos chats online de pôquer. Lol.&lt;br/&gt;</description>
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      <title>A paixão e a gastritePoucas coisas são mais cultuadas que a paixão romântica. É bonito, dizem, estar...</title>
      <link>http://www.ohomemsincero.globolog.com.br</