Escrito por Fabio Hernandez - 10/05/2008

Trair a si próprio é a mais abjeta das traições


Não lembro onde li, outro dia, uma relação de casais marcantes das últimas décadas. John e Yoko estavam lá. Sempre agarrados. Até no estúdio durante as gravações dos Beatles, para total desgosto de Paul, George e Ringo. Nos ensaios da banda, que eram o momento de maior intimidade dos quatro, um espaço sagrado invadido por Yoko em sua sem-cerimônia de artista plástica vanguardistamente fracassada, Paul detestava vê-la encostada em seu amado amplificador. Lol. (Lá vou eu para mais uma de minhas intermináveis digressões: acho linda a expressão usada para determinar o período em que Lennon esteve separado de Yoko. Lost Weekend. Fim de Semana Perdido. Um fim de semana que, na realidade, durou mais de um ano, ao longo do qual Lennon viveu em Los Angeles ao lado de velhos amigos em históricas bebedeiras e brigas de bar e na companhia de uma jovem gostosa de ascendência chinesa, May. May trabalhava com eles, e dizem que Yoko a mandou a Los Angeles para dar sexo bom a John, mas mais que tudo para vigiá-lo.)

Fim da digressão. Fora aquela interrupção, ou talvez mesmo no decorrer dela, John e Yoko pareceram sempre apaixonados. Muitas canções de John tinham Yoko na letra. Eles apareciam até como parceiros em certas músicas. Em alguns discos de John, a gritaria desafinada de Yoko dividia espaço com a voz sublimemente desesperada, incomparavelmente sofrida de John. Lembro-me de uma foto do casal célebre, feita por Annie Leibowitz, a maravilhosa fotógrafa americana, em que John apareceu nu e em pose fetal.

E então me ocorreu o seguinte: John e Yoko são o pior modelo de casal que já apareceu desde Adão e Eva. Exagerei? Desculpem. É meu jeito superlativo de ser. Mesmo assim, repito: eles são um péssimo exemplo. O pior que conheço. Vocês aceitam mais uma digressão? Existe uma crônica do grande Rubem Braga em que ele fala de um casal de velhinhos que passeava sempre de mãos dadas, para admiração comovida dos circunstantes. Diz Rubem: ele a detestava, ela o desprezava. (Pode ser também o contrário. Estou citando de orelha. Aliás: nem sei qual foi o sentido dessa citação. Aceito ajuda.)

De volta a John e Yoko. O que houve ali, na minha opinião, foi um lamentável caso de anulação do indivíduo. John se anulou quando se juntou a Yoko. Ele deixou de ser John Lennon para ser a metade de um casal. O indivíduo morreu. Em algumas ocasiões, ele assinou (ou eles assinaram) Lennono, a junção esquisita dos dois sobrenomes. E num disco o rosto de ambos se fundiu e o que dali resultou jamais poderia ser classificado de belo ou mesmo feliz.

Tio Fabio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha, uma vez me deu um livro de Aristóteles. Confesso que tremi diante da possibilidade de enfrentar as páginas intensamente cerebrais do grego e depois ser sabatinado por Tio Fabio e suas perguntas sagazes. Fiquei mais aliviado quando vi que havia uma página assinalada e, nela, uma frase sublinhada. Era mais ou menos o seguinte: a virtude está no meio. Tudo que Tio Fabio queria que eu soubesse de Aristóteles se resumia naquela sentença.

Também nas relações amorosas acredito que a virtude esteja no meio. Entregar-se completamente a alguém, como fez John Lennon, é um erro tão espetacular quanto não se entregar nada. Nem dar tudo, nem dar nada. A virtude aristotélica é inspiradoramente brilhante. Um casal deve dividir alegrias, angústias, posses, orgasmos e até peixinhos no aquário. Mas ninguém deve renunciar a ser o que é. Antes de sermos maridos, namorados, concubinos ou o que mais for, somos nós mesmos. Com nossos pequenos gostos, nosso pequenos (ou grandes) vícios e virtudes. Quando deixamos de ser nós mesmos para agradar alguém, não somos mais nada. Trair a si próprio é a mais abjeta das traições.

Arrisco uma última (juro) digressão. O que teria acontecido com John se ele não se anulasse diante de uma mulher? Teriam os Beatles sobrevivido? Me ocorre a imagem grisalha dos quatro garotos ingenuamente bonitos de Liverpool tocando, neste início de milênio, um rock cheio de rugas e gritando ié-ié-ié. Não, não, não. A morte dos Beatles talvez tenha sido a contribuição milionária de Yoko. A recompensa suprema pela anulação de John. Eu ia encerrar meu texto amaldiçoando Yoko. Mas termino abençoando-a, e cantando baixinho, estranhamente comovido, strawberry fields forever.

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Escrito por Fabio Hernandez - 06/05/2008

Depois do adeus

Eu confesso: não sou amigo de ex-namoradas. Ao contrário de outros caras, não faço o menor esforço para manter a amizade de quem saiu da minha cama, dos meus pensamentos e da minha agenda. Não é por raiva, não é por mágoa, não é por revanche. É simplesmente por desinteresse. O elo que nos uniu foi rompido na separação. Aquela vontade de estar junto, de compartilhar as pequenas coisas do cotidiano, de trocar um olhar furtivo e cúmplice no meio da multidão perdeu-se. Não sobra base nenhuma em cima da qual construir uma relação de amizade. Quem já foi tudo para alguém é melhor que se transforme em nada, com a ruptura, e não em pouco.
Não estou dizendo que se deva ser rude, tosco, bruto. Não advogo aqui que se vire o rosto para o lado num reencontro fortuito. Ou que se bata o telefone na cara ao ouvir aquela voz cujo timbre, poder e influência tiveram tanto significado para você. Também não prego que se lancem calúnias sobre ela e, embora seja grande a tentação, sobre ele, o novo homem. (Porque o novo homem é inapelavelmente um perfeito idiota, um canalha absoluto.) E acho uma tolice, na separação, pegar por birra, e só por birra, os livros e os discos que você sabe que são os prediletos dela. Tudo isso seriam provas de um espírito fraco, vingativo. O que recomendo, e pratico, é a indiferença. A indiferença pode ser natural, o que é a melhor opção. Ou pode ser também cultivada, caso a namorada perdida continue a ter presença em seus pensamentos. O que se deve evitar, enfim, é a continuação empobrecida, sem sentido e quase sempre hipócrita de uma relação que se acabou.

Por mais que se diga e que se finja que não, um homem só é genuinamente amigo de outro homem. O pequeno grande código da amizade não mistura homens e mulheres. Imagine dois amigos num bar, falando de futebol. Mais especificamente, do soberbo futebol que o Corinthians tem praticado nos últimos tempos. A descrição da série endiabrada de dribles do Dentinho é bruscamente interrompida quando uma mulher gostosa passa diante dos dois amigos. Ambos olham para ela, depois um para o outro, e então vem um sorriso que diz e resume tudo. E enfim se retoma a conversa paralisada: isso é o retrato da amizade entre dois caras. É impossível reproduzir essa situação quando se trata de um homem e uma mulher. Logo, não há chance de amizade. Eu citei uma situação clássica. Há dezenas de outras, que vocês conhecem tão bem quanto eu. E sei que o inverso é também verdadeiro: uma mulher só é realmente amiga de outra mulher. (Embora a inveja e a rivalidade entre as mulheres, em geral num grau acentuadamente maior do que o que se verifica entre nós, atrapalhem muitas amizades. Mas isso é problema delas, não nosso.)

Uma relação entre um homem e uma mulher pode ser divina. Uma das maiores bênçãos que os Deuses concederam ao homem é estar dentro da mulher amada, unidos no corpo, unidos na alma, num lapso de tempo que, embora precário, se confunde com a eternidade. Uma dupla, metade masculina e metade feminina, pode formar um universo de enlevo, êxtase e inspiração. Mas a amizade fica de fora. Sejamos objetivos: o único amigo genuíno que uma mulher pode encontrar no gênero masculino é, até para reproduzir a situação clássica masculina, aquele que há de compartilhar com ela um olhar cúmplice de admiração quando irromper um homem considerado bonito.

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Escrito por Fabio Hernandez - 02/05/2008

Mulherzinhas


Pedro olhou para o relógio e viu que estava quase uma hora atrasado. Não ficou exatamente preocupado. Pontualidade era uma virtude que ele estava longe de ter conquistado, e de resto as duas meninas que ele ia encontrar no Pirassanduba se entretinham muito bem sozinhas. Eram amigas, realmente amigas, daquelas que se telefonam de madrugada para dividir histórias de amor ou de desilusão, um dia de triunfo na redação do jornal ou de derrota para o chefe careta que insistia em mexer no texto jovem e irreverente de ambas. As duas, quando juntas, se olhavam com fixidez, como se nada lhes importasse além delas e do pequeno mundo jornalístico ao qual pertenciam. Poderiam ser tomadas como namoradas num primeiro olhar, lésbicas que por serem gostosas provocam nos homens um sentimento de perda e impotência, mas um segundo olhar revelava com inteireza duas fêmeas incapazes de ter interesse amoroso em outras fêmeas. Encaixe para elas era possível apenas com homens. Eram heterossexuais convictas, quase fanáticas, embora tivessem muitos amigos e amigas gays.

Era uma noite de fevereiro, daquelas em que as zonas boêmias de São Paulo parecem estar numa festa sem hora para acabar. Pedro, a caminho do bar em que as duas o esperavam, pensou no quanto amava São Paulo e seu caos majestoso e cosmopolita, diversidade gloriosa e bela de suas mulheres. Pedro nascera em São Paulo, e decidira morrer em São Paulo. Comprara um espaço no Getsemani, não por morbidez, mas para evitar surpresas póstumas desagradáveis. Quando estava fora de São Paulo, ansiava por voltar para a cidade como um garoto perdido num lugar desconhecido anseia por encontrar com seus olhos aflitos os da mãe.

Pedro, ao chegar, pensou por um momento se não era melhor retroceder e as deixar entregues uma à outra, tão animadas pareciam em sua conversa de mulherzinhas. Pamela, Pam, usava um vestido curto e colorido, “klimtiano”, como ela dizia. Pam pintava nas poucas horas vagas que a rotina dura de uma redação libera, e Klimt era sua maior inspiração. Fizera balé muitos anos, e gostava de dançar Madonna exatamente do jeito que Madonna dança. Uma amiga fotógrafa fizera fotos em que ela aparecia provocativa, lascivamente bonita, e Pam revia suas imagens nuas sempre que se sentia insegura sobre sua beleza. Pedro riu sozinho ao pensar na Pam da sanduicheria e na Pam de The Office. Via sempre The Office antes de dormir para relaxar e melhorar as chances de um sono bem-humorado. Pam, a de The Office, ganhando o prêmio anual do seu escritório pelos tênis mais brancos da temporada, e completamente bêbada acenar sua estatueta e fazer agradecimentos como se fosse um Oscar, esta sua cena favorita de Pam.

Fernanda, Fê, usava jeans e camiseta branca básica. Viera a São Paulo de Ribeirão, onde morava fazia algum tempo. Ao subir no ônibus vira um velho cantor, e temeu que ele se sentasse a seu lado no ônibus. Sentou-se. O cantor estava alto, e logo caíra num torpor etílico que levou sua cabeça grisalha a desabar nos ombros acolhedores dela. Fê, como Pam, era morena e atraente, e ainda assim sonhava com uma lipo que lhe tirasse rapidamente alguns quilos que ela tinha preguiça de eliminar com ginástica rotineira. Tinha um blogue literário cheio de comentários.

As jornalistas de minha geração eram menos vaidosas, refletiu Pedro. Quase todas pareciam ter raiva da beleza, como se olhar para o espelho e usar um batom fosse um sinal desprezível de frivolidade, e seu desejo maior não era sexual, mas sim político. Derrubar a burguesia. Pam e Fê queriam ouvir a opinião de Pedro sobre um projeto literário. Queriam escrever em conjunto um romance, em forma de cartas, sobre a mulher de 30 anos. Seu mundo, seus sonhos e ilusões, suas fantasias e inseguranças. Eram mulheres formadas sob a inspiração de Carrie e suas amigas de Sex and The City, fêmeas sitiadas por homens egoístas e avessos a qualquer compromisso sério. Influenciadas por histórias que não resistem a uma escova de dentes no gabinete do banheiro.

Pedro gostou. Achou a idéia original, e se lembrou de alguns romances clássicos escritos na forma de diálogos, dos quais o que mais lhe agradava era Relações Perigosas. Tinham escrito alguns capítulos, e passaram a Pedro para que ele os analisasse. Pedro folheou as páginas, e sorriu ao ver na última delas uma nota de agradecimento de Fernanda em sua letra de normalista. “Obrigado por ter chegado aqui”, estava escrito. Era um gesto típico, delicado e surpreendente, de mulherzinhas.

Tomaram os três algumas garrafas de Stella, e comeram sanduíches. Pedro escolheu um Pepe Legal, e ficou satisfeito. Pedro não podia ficar muito tempo. Tinha um outro compromisso, um show de sua banda favorita paulistana em outro bar ali na Vila. Terminou o sanduíche, pegou as primeiras páginas do romance de Pam e Fê e aceitou, sem insistir muito, que elas ficassem com a conta. A vida de um jornalista frilancer como ele não era tão fácil assim financeiramente. Pam, com seu vestido klimtiano, beijou-o involuntariamente perto dos lábios, e ele ficou momentaneamente perturbado. Fê deu-lhe um sorriso confiante de jovem escritora que acredita que seus leitores haverão de aparecer um dia, nem que seja daqui a 25 anos.

Pedro deu alguns passos em direção à escuridão paulistana, e depois se virou para um último olhar para as duas amigas. Elas conversavam alegremente. Pedro parecia ter sido apenas um parêntese no encontro de duas amigas que se amam, e que são capazes de ligar uma para a outra alta madrugada para falar de uma primeira saída incrível com um cara legal. Eram bonitas, divertidas, espirituosas, riam do mundo e uma da outra. Pedro sorriu, como se tivesse ouvido a melhor tirada de uma delas, e depois retomou sua marcha desajeitada rumo à escuridão da cidade que ele tanto amava, um vulto solitário como os de Hopper, o grande retratista da solidão americana, errando pelas ruas da São Paulo em que ele nascera, crescera, sonhara, se desiludira e haveria de morrer.




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Escrito por Fabio Hernandez - 30/04/2008

O ÚLTIMO REDUTO DO MACHO

“ Um homem só é feliz ao lado de uma mulher se é dele o controle remoto.” Foi o que me disse outro dia meu amigo Guillermo. Guillermo foi vítima da Mulher Exigente. Alessandra, sua namorada, transformou-o num escravo. Ela escolhia os filmes no cinema, os DVDs, as peças de teatro. Ela escolhia os restaurantes, as viagens, os hotéis. Ela escolhia as posições sexuais e as preliminares. Aliás, demoradas e extenuantes mesmo para uma pessoa atlética como Guillermo.
E a morte: ela não lhe dava a menor chance de pegar o controle remoto.
A Mulher Exigente não é uma espécie exatamente nova. Na Bíblia, você encontra muitas delas, como Betsabá, que mandava no rei Davi, que mandava em todos. (Para tê-la, Davi enviou o marido de Betsabá à frente de uma guerra. O objetivo era que ele morresse, o que logo aconteceu.) A Mulher Exigente, repito, não é novidade. Mas o fato é que, nos tempos recentes, com o avanço feminino em todas as áreas, do escritório ao futebol, ela se multiplicou espantosamente.
A Mulher Exigente parece se vingar, em cada homem, da dominação masculina secular. O homem não é um parceiro, um cúmplice, a metade de um todo. O homem é o concorrente a ser batido. Como uma gladiadora sem direito a férias nem fins de semana, a Mulher Exigente está em combate o tempo todo. Ela quer espaço, mas não em pedaços. Ela quer todo o espaço.

A Mulher Exigente despreza o avental e a cozinha. Despreza sua mãe, sua avó e todas as antepassadas que se curvaram ao pérfido domínio masculino. Despreza o homem. No fundo, a Mulher Exigente prefere um vibrador a um macho, porque é mais fácil de manejar. A frase masculina que mais a excita sexualmente, dita num timbre tímido e amedrontado, é: “Posso?”
Ela não fala, grita. Ela não pede, manda. Ela não cede, impõe.
E ela, paradoxalmente, é nossa cria. Nós inventamos nosso inimigo. Nós a demos à luz. Nós e nossa covardia culpada. Porque nós nos sentimos culpados por ser homens e mandar, desde sempre. Nós caçávamos os javalis enquanto elas ficavam no conforto aquecido da caverna, nós nos expúnhamos ao frio e aos dentes da fera e, mesmo assim, carregamos um sentimento de culpa que se refinou ao correr dos longos dias e foi dar na proliferação da Mulher Exigente.
Somos vítimas não da Mulher Exigente, mas de nós mesmos.
Viramos subalternos, ganhamos a docilidade pétrea de recrutas perante generais. Nos transformamos em pó. Somos chicoteados e agradecemos ao chicote e à mão que o empunha pela deferência em nos escolher como alvo.
A queda da Bastilha selou a Revolução Francesa. Entendi, pela expressão aterrorizada de meu amigo Guillermo, que a Bastilha de nós, homens, é o controle remoto. Ao perdê-lo, perdemos tudo. É o último reduto do homem que não se rende, a sua Excalibur. A derradeira esperança, a tocha trêmula numa escuridão espessa.
A Mulher Exigente vai mandar você deletar este texto.
E você vai deletar.


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Escrito por Fabio Hernandez - 27/04/2008

Os melhores anos de minha vida


Há uma cena num romance de John Updike que me comove. Updike é um dos maiores romancistas contemporâneos, e seus livros têm sempre uma sexualidade intensa e elegante. Mas o trecho a que me refiro não tem nada de lascivo. É a morte de Harry Angstrom, o Coelho. Harry fora um astro do basquete universitário e levou as marcas disso até seu último dia. Ele jamais lidou bem com a idéia de que seus dias de celebridade tinham passado e que agora ele era um simples revendedor de carros japoneses. Acima do peso, colesterol alto, um casamento monótono como sermão de padre espanhol ou conversa de advogado. A morte como que o redime. Já na casa dos 60 anos, com o coração combalido, ele um dia está andando e vê alguém jogar basquete na rua, uma cena comum nos Estados Unidos. Ele não podia se esforçar, por causa do coração, mas entra no jogo. E morre. Na morte, ele afinal se reencontra com o que de melhor houve em sua vida. O basquete, os tempos jovens e sonhadores em que as coisas tinham um significado maior que vender carros da Toyota e arrastar um casamento enfadonho.
Júlio César, o imperador romano. Ele disse que a maior dádiva que os deus podem conceder a alguém é uma morte rápida. Os deuses a concederam ao Coelho, e como bônus lhe deram uma última cesta.
As lembranças mais potentes que carregamos são as da juventude. É quando temos coragem, embalamos sonhos, acreditamos em algo além de uma carteira cheia de dinheiro e cartões de crédito. O tempo nos tira a ousadia, a petulância, a fé cega que nos faz crer que nenhum obstáculo é intransponível, escreveu Cícero, o maior orador que a humanidade gerou.

Ao crescer, diminuímos.

As tentativas desesperadas de rejuvenescimento explicam-se nessa diminuição. O homem que faz implante de cabelo, ou se submete a uma cirurgia plástica para tirar rugas, ou passa a andar com mulheres bem mais jovens, ou engole Viagras, ou faz tudo isso e outras coisas mais, esse homem não busca a aparência perdida.

Ele busca, na verdade, a alma perdida. Ele procura, perplexo, a si próprio.

Foi o que fez Harry Angstrom ao correr atrás de uma bola de basquete que podia matá-lo. Uma bola gloriosamente, mortalmente redentora. Ao pensar em Harry e o basquete, me ocorrem o futebol e eu. Nada me fascinou tanto, na vida, como uma partida de futebol. Fui um pequeno astro na adolescência, mais ou menos como Harry. Uma contusão acabou aos 15 anos com meu sonho de ser jogador de futebol.
Desloquei o fêmur esquerdo. Epifiólise. Jamais esqueci o nome técnico do mal que me tirou dos gramados que tanto amara. Lembro do cheiro da grama recém-cortada ou molhada como do perfume da mulher amada. Não sei se alguma desilusão amorosa, posteriormente, teve o mesmo impacto da dor de meu sonho infantil destruído. Durante um bom tempo, nem sequer ver futebol na televisão eu conseguia. Como doía, Deus, como doía. A bola para sempre perdida. Um sentimento de fracasso, impotência, melancolia. Desespero. Eu nascera para ser jogador, e aos 15 anos era como se minha vida tivesse perdido o rumo e o sentido.

Lembro meu último jogo na categoria para garotos. Mirim. Eu chegara ao limite da idade. Um empate nos classificava, mas uma falha do goleiro nos eliminou. No carro, a caminho de casa, meu pai me disse: “Você vai se lembrar desses anos como os melhores da sua vida”. Ainda agora parece que ouço, com clareza, suas palavras. Lembro o ponto exato da cidade em que ele disse cada sílaba. Logo depois disso, o fêmur me traiu.

Foram mesmo os melhores anos de minha vida.

Papai estava certo. Minhas fotos naquela época mostravam um menino loirinho, olhos arregalados e brilhantes como os de Natasha, uma bola sempre por perto. Nunca estivemos tão ligados, meu pai e eu, como naqueles dias de futebol. Me pergunto agora o que amei mais naquela época: a bola ou a intimidade intensa com meu pai? Oh God I miss him so much, o verso daquela canção tão bonita de Elton John e Bernie Taupin me ocorre agora ao pensar em meu pai. Talvez um dia, como aconteceu com Harry, apareça uma última e redentora bola na minha frente. Deus, como gostaria de repetir o gesto maravilhosamente irresponsável do velho Harry e chutá-la, uma última e definitiva vez, como o Coelho, e partir como ele depois de um fugaz reencontro com os melhores dias de minha vida, como o Coelho, nós dois que fomos jovens astros de esportes diferentes, e depois desabamos cruelmente, e para sempre, de nossas ilusões.



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Escrito por Fabio Hernandez - 25/04/2008

Thunder trocou o pneu furado

Meu amigo Thunder achava que tinha encontrado o amor de sua vida. Tereza, dizia ele, era perfeita. Repórter da seção de cultura de um grande jornal. Bonita, loira de cabelos que escorriam quase até a cintura, sexualmente petulante, inteligente. Falava de Proust, de Almodóvar e de artes marciais, e não recusava as fantasias de Thunder. Piercing no seio, que ela dizia deixá-la em estado de contínua excitação, tatuagem de golfinho na virilha esquerda. Tudo bem que Thunder é uma gangorra sentimental, sempre à procura da mulher perfeita, mas sua descrição de Tereza me fez acreditar que aquela história duraria pelo menos algumas semanas. Não durou mais que dez dias. Quando Thunder me disse por que tinha demitido de sua vida uma mulher tão sensacional como Tereza, vi que ele tinha toda razão.

Tereza era a Mulher Tagarela.

Um homem suporta muitas coisas. Dor de dente, congestionamento, jogadores mercenários. Pedágios que se multiplicam, Claudia Leitte e Ivete Sangalo, o mosquito da dengue. Filas. Sogras, juízes de futebol, supermercados sábado pela manhã. É incrível a resistência do homem às calamidades.

O que não dá para suportar é a Mulher Tagarela.

Tereza, me disse Thunder, era uma Mulher Tagarela. Seu assunto favorito, como sempre acontece nesses casos, era ela mesma. Tereza se julgava uma eterna manchete. Contava suas histórias com entusiasmo barulhento. Seus olhos se arregalavam ao falar de si própria. Não havia pausa, não havia brechas pelas quais o pobre Thunder conseguisse deter o vulcão verborrágico da loira espetacular. “Tudo bem que a mulher fale antes e depois do sexo”, me disse Thunder em sua estupefação tola. “Mas durante fica difícil. Não estou falando de conversa sexual. Ela me contava coisas como o elogio que tinha recebido do chefe, e de como tinha sido merecido. Uma vez ela me falou como tinha roubado o namorado rico e poderoso de sua irmã. Uma outra vez ela abriu os olhos subitamente e me disse se podia me fazer uma pergunta. Eu disse sim, e ela perguntou se eu podia trocar o pneu furado do carro dela. O pior é que troquei imediatamente.”

A Mulher Tagarela não tem limites. Simplesmente detesta ouvir. Depois de escassos segundos de aparente atenção, você nota em seus olhos fugidios que ela não esta ouvindo. Seus pensamentos estão na verdade voando em torno dela mesma. Nada do que você faz é capaz de prender o interesse da Mulher Tagarela. Por isso ela não tem amigas e nem amigos. É amiga apenas de si mesma. Thunder é um jornalista aspirante a escritor. Contou empolgado a Tereza que uma editora de livros tinha decidido publicar o seu primeiro romance. O primeiro romance publicado de um aspirante a escritor é mais importante que o primeiro sexo ou que a primeira vez que dirige um carro. Ela bocejou e pediu a ele que fosse buscar um copo de água para ela. Metade gelada, metade natural. Estava com sede.

Foi quando Thunder desistiu. Não sem antes, é verdade, ter providenciado o copo sob medida de água para Tereza.

Thunder queria o básico. Nada além do básico. “Ela não precisava nem ler o manuscrito”, ele me disse. “Bastava pedir uma cópia e depois dizer que tinha achado alguns trechos legais.” Nos poucos dias em que estiveram juntos, Thunder conheceu compulsoriamente toda a história de Tereza. Detalhes em geral pouco animadores de seus namorados passados. Johnny falhara algumas vezes. Lúcio tinha ejaculação precoce e se recusava a enfrentar a verdade e procurar um médico. Danny Boy gostava de vê-la com outro cara na cama. Edu, com certeza, não escovava os dentes. Tavito nunca tinha lido um livro, era um burro. Bruno achava que Sergio Leone era um jogador de futebol do Milan.

A Mulher Tagarela só tem palavras positivas para ela mesma.
Apenas uma espécie se compara a ela.
É o Homem Tagarela.

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Escrito por Fabio Hernandez - 21/04/2008

Álbum de casamento
Estamos vendo o álbum de casamento de meu irmão Jose. Me vejo em algumas fotos na igreja, mas não na festa num sítio próximo de São Paulo. Digo a minha cunhada, que me mostra o álbum, que naquele dia tive um compromisso profissional, e ela concorda. Depois me lembrei que na verdade tinha um jogo de futebol no campeonato do clube, mas achei melhor que ela considerasse o importante compromisso profissional do jovem cunhado jornalista.
Quantas pessoas queridas nas fotos, e quantas já mortas. Mas aquele foi um dia feliz, A Perfect Day, como cantou Lou Reed. Meu pai, por exemplo. Ele estava tão alegre. Poucas curvas adiante meu pai estaria morto, e uma família feliz como a nossa teria para sempre uma ausência dolorida, cortante, num certo e prolongado momento dilacerante. Nós nos amávamos tanto, nós sete, meus irmãos e meus pais, e jamais nos acostumamos por inteiro a ser seis. Diminuímos em número, diminuímos na alma.
Estou sem namorada naquele casamento. A mulher que me acompanha em algumas fotos era uma velha tia solteira, neurastênica, reumática – e incrivelmente maravilhosa. Ela me ensinou a jogar buraco, e ficou para mim gravado eternamente o estilo simples com que ela manobrava suas cartas. Canastra suja, poucos jogos, e a batida que surpreendia os adversários cheios de cartas e sonhos frustrados. Numa outra vez escrevi que aquela minha tia foi a única pessoa que acreditou que eu vomitei a noite toda num verão em Ribeirão Preto por causa de amendoins e não por causa de sucessivas batidas de pinga. Foi meu primeiro e inesquecível fogo, aos 16 anos, e pelo resto da vida minha tia me recomendava extremo cuidado com amendoins. A Tio Julio, menos crédulo, bastou aspirar uma vez o ar do quarto em que eu estava. “Isso é cachaça pura”, disse em sua voz estentórea de Fred Flintstone. Tio Julio rasgava o baralho quando perdia um jogo de buraco, e depois andava pelas ruas de Ribeirão em busca de um bar aberto para comprar um copag. Tio Julio não gostava de perder jogos de xadrez para mim. Naquele tempo eu lia livros de xadrez, e estudava partidas ilustres.
Não vejo Tio Julio no álbum de casamento de meu irmão. Não deve ter tido jeito de vir de Ribeirão a São Paulo, imagino. Uma foto. Me detenho numa foto na festa. Os amigos, vários deles, uns de pé, outros abaixados como um time de futebol. Ah, éramos jovens, éramos jovens, como diz o último trecho de Os Maias, no qual os amigos Carlos e Ega erram pelas ruas de Lisboa e lembram os dias de sonhos construídos e destruídos. Não estou na foto, e me detenho em cada um dos rostos de garotos dos meus amigos. Ali o Minhoca, adiante o Belisco, agachado o Banus, e alguns outros chapas. Um deles não reconheço imediatamente. Pergunto a meu irmão Jose quem era. Ele olha por alguns momentos, respira fundo e diz: “O Eduardinho.”
O Eduardinho. O Edu. Está de pé naquela foto. Talvez o único entre todos que não tenha um sorriso forte no rosto. Parece preocupado, o Edu, o Eduardinho. Olha sério para a câmara. Parece um goleiro na foto oficial de um jogo nervoso e decisivo. Lembro de um casaco preto de couro do Edu. Era o máximo. Jamais tive um tão bonito. O Edu parecia preocupado. Sei lá. Poucos anos depois o Edu estava num caixão. Arrumara uma briga num bar. Eu não disse, mas o Edu era valente. O cara pegou um revólver e descarregou no Edu. E O Edu estava armado apenas com seus braços finos e atrevidos, e não tinha outros escudo que não seu casaco de couro preto.
Nós amigos fizemos, jovens ainda, uma das coisas mais tristes que existe na vida de um homem. Carregamos seu caixão, e dissemos entre nós lembranças do Edu que nos aqueceram num dia gelado enquanto ele era enterrado. A Perfetc Day. Do avesso. E eis que aparece ali aquela foto do álbum de casamento do meu irmão Jose, e nela o Edu, o Eduardinho, que não nos acompanhou na caminhada de beleza miserável por essa terra tão fugidia, e era valente e tinha um casaco preto como eu jamais tive e nem terei. O Edu, aquele ali de pé no canto, o único que não ri para a câmara, o Eduardinho.



Dedicado à memória de Eduardo Bueno

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Escrito por Fabio Hernandez - 17/04/2008

Felizes para sempre



Tolstoi disse que as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes são infelizes cada qual a sua maneira. É uma frase célebre, e que abre Anna Karenina, um dos maiores romances jamais escritos. E lá vou eu para uma digressão: Anna é, ao lado de Capitu, de Machado de Assis, a adúltera mais fascinante da literatura. As duas se entregaram: Anna, ao ficar em estado de choque quando seu amante nobre, Vronski, caiu do cavalo numa corrida. Capitu, ao mostrar dor maior que a da viúva no velório do amante, Escobar, melhor amigo de seu marido. Anna terminou sob as rodas de um trem, num suicídio. Capitu, de olhos oblíquos e dissimulados, foi repudiada pelo marido e morreu solitária no abandono europeu. Nem Tolstoi nem Machado trataram bem suas formidáveis adúlteras. Um filósofo escreveu que é mais fácil não começar do que terminar. Para as duas, teria sido definitivamente mais fácil não começar uma história fora do casamento.

Mas não. Não era sobre isso que eu ia falar. Era sobre as famílias infelizes. Elas não nascem infelizes quase nunca. São felizes, e um simples fato ao acaso as faz infelizes. Penso neles, na família Brandão. Minha mente recua alguns anos, e ali os vejo.
Brandão, a mulher e as duas filhas. As garotas são lindas e têm uma característica que multiplica o encanto da mulher bonita: elas parecem não se dar conta de sua beleza de fazer bispo olhar para trás e chutar poste. As filhas do Brandão, no seu apogeu, eram lendas em vida no seu círculo. Admiradas, cobiçadas, amadas por, bem, todos nós.

Era uma família feliz. Casa bonita, o pai bem colocado, a mãe vigorosa e enérgica, e filhas que, bem, filhas que deslumbravam. Um dia, uma delas, a mais velha, olhos verdes como as águas ao entardecer do mar de Salvador, errou na dose de alguma droga e perdeu a razão para nunca mais recuperá-la. A família feliz se tornou infeliz para sempre.

Vi isso de perto. A filha caçula fez o chão tremer para mim. Já escrevi aqui que, segundo Hemingway, três vezes o chão treme na vida dos apaixonados. Não mais que três. Está lá, numa das passagens de Por Quem os Sinos Dobram, um romance quase tão bom quanto Anna Karenina.

A caçula dos Brandão fez o chão tremer para mim. Às vezes me pergunto se também fiz o chão tremer para ela, mas é apenas um devaneio sem sentido. Talvez sim, talvez não. Rio agora do choro tolo e convulsivo que me tomou quando a perdi. Os anos me tornaram um cínico amoroso, reflito.

Perdi o contato com a família. Soube há pouco que a mãe das garotas morreu. Quase ninguém foi avisado. Estou aqui com o número do celular da caçula. Não sei se terei coragem para ligar. De resto, para dizer o quê? Que lamento as ruínas do mundo em que ela foi uma jovem rainha? Que na minha memória a felicidade da família jamais foi perdida?

Sêneca.
Sêneca, meu filósofo favorito, falou no perpétuo vaivém de elevações e quedas. De como é sábio se preparar para isso. A vida é feita de elevações e quedas. No campo pessoal, profissional, amoroso.

Eu queria tanto reagir com sabedoria à queda da família Brandão. Mas não consigo. E então subverto a realidade aqui nesta página. E crio, como num sonho bobo, um final em que nada destruiu a felicidade daquele quarteto que tanto admirei e amei. No momento em que ia tomar a dose que a enlouqueceria, a mais velha decidiu, como um samurai, como o maior deles, Musachi, combater o vício com a espada da determinação. Derrotou-o gloriosamente. O pai, a mãe e as duas filhas: ali estão os quatro, na varanda floreada em que recebiam os que chegavam encantados como eu, sorridentes como diante de um fotógrafo. Felizes para sempre.


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Escrito por Fabio Hernandez - 13/04/2008

“As mulheres não são engraçadas”
Acabei de ler a última Vanity Fair. Para muitos é a melhor revista do mundo. Americana. A capa é uma resposta a um ensaio feito por um provocador brilhante chamado Christopher Hitchens: “As Mulheres Não Têm Graça”. Ele dizia que o cinema jamais produziu comediantes mulheres notáveis, e nem a televisão, salvo uma ou outra exceção, como Lucille Ball. O feminismo fez mal para o humor feminino. Hitchens nota também que as mulheres, ao contrário dos homens, lidam mal, amargamente, com os sinais de decadência física. Os homens fazem disso graça, e as mulheres se atormentam. O artigo de Hitchens, bem como a resposta, está em www.vf.com.
A capa da edição que acabo de ler afirma: “Quem Disse Que as Mulheres Não Têm Graça?” Uma capa soberba, foto de Anne Leibowitz, uma das melhores fotógrafas do mundo. (Alguém conhece aquela capa da Rolling Stone em que Lennon, nu, aparecia em posição de feto na cama ao lado de Yoko? Anne Leibowitz.) Três comediantes jovens na capa, mulheres, e uma delas segura delicadamente o seio esquerdo de outra. Esta a noção feminina de graça? Only in America. Só nos Estados Unidos. Nós homens temos outro nome para isso. Lol.
O texto se esforça, mas a única mulher realmente engraçada que a VF conseguiu encontrar foi Jenna Fischer, de The Office. Verdade. Ela é muito engraçada. The Office é uma série incrivelmente espirituosa, e Jenna Fischer é um de seus pontos altos. Aquele chefe. Steva Carell. O cara é absolutamente divertido. Você ri só de olhar, como acontecia com Jerry Lewis. Ou com Jim Carrey. Homem. Liz Kudrow, de Friends, é ótima. Ok. Concedo. Mas a lista das comediantes mulheres não preenche os dedos de uma mão.
Certo. Você vai dizer: poxa, mas eu sou engraçada. Meu namorado ri de quase todas as minhas piadas. Por exemplo aquela que ... Tudo bem. Também me acho divertido. relativamente. Jamais pensei em ser comediante, mas já sonhei ser roteirista de seriado divertido como Friends ou Seinfeld. Então. Sou engraçadinho, acho. Mas não é na pessoa física que estou pensando. É na pessoa "pública". Gente que faz rir por ofício.

Penso no Brasil. Que comediante talentosa a TV brasileira produziu? E o cinema? E a imprensa? Na imprensa os humoristas de gênio: Péricles, alguns caras do Pasquim, Zé Simão, Chico Caruso. Homens. Hitchens está certo. Levante a mal, e atire pedras, mas só com argumentos e mais que isso nomes, quem tiver outra opinião. Ah, sim. Tenho que dizer que as mulheres possuem tantos, tantos atributos únicos e incomparáveis – ah, sua beleza, sua suavidade, seu andar, e seus decotes de fazer bispo olhar para trás e chutar o poste -- que podem muito bem passar sem o incrível senso de humor típico de nós homens. Lol. Laughing outloud, lol, como a gente escreve abreviadamente nos chats online de pôquer. Lol.

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Escrito por Fabio Hernandez - 09/04/2008

A paixão e a gastrite



Poucas coisas são mais cultuadas que a paixão romântica. É bonito, dizem, estar apaixonado. Você volta a ser um adolescente sonhador, iconoclasta, mesmo que já tenha passado dos 30 ou mesmo dos 40. Você retoma a criatividade embolorada. É capaz até de mandar flores e, mais ainda, de escrever versos lindamente medíocres. Você se olha com renovado interesse no espelho. Capricha no penteado depois de anos de desleixo. Refaz o guarda-roupa. Considera até a possibilidade de se depilar para ficar na moda ou parecer mais atraente para ela. Viagra, talvez, para não correr riscos de mau desempenho. Alguns pensam até na hipótese de aprender a tocar violão para impressioná-la com um dedilhado que será inevitavelmente tosco. E todos com certeza cantam alto em seu carro as músicas adocicadas prediletas que colocam para ouvir e se inspirar neste momento mágico de deslumbramento.

A paixão é linda, é o que dizem. E é também horrível. Uma das aberturas de romance mais aclamadas da história da literatura diz o seguinte: “Era o melhor dos tempos, e também o pior”. O autor é Dickens.

O mesmo se aplica para a paixão. Ela nos eleva e nos rebaixa ao mesmo tempo. Vou ser direto: a paixão nos faz burros, ridículos, irresponsáveis. O mais complicado é que ela faz tudo isso e além do mais nos engana: temos a convicção de que ela nos torna o oposto. Charmosos, quase irresistíveis.

O apaixonado é um sofredor. Ele não dorme. Ele come mal. Se ela telefona, ele tem uma crise de euforia. Se o telefone emudece obstinadamente, é motivo de aguda depressão. Se ela corresponde, ele é o rei do mundo. Se não, ele pensa alternadamente em matar ou morrer. Às vezes, nas duas alternativas. Ou numa terceira, se ela estiver interessada em outro cara.


Nenhum apaixonado de verdade escapa da gastrite. A gastrite é a prova definitiva do amor verdadeiro. E não qualquer gastrite, mas aquela que leite nenhum ameniza ou cura. Porque o problema está na mente insana, e não no estômago castigado.

Os filósofos discordam uns dos outros em quase tudo. Montaigne disse que não há nada que alguém diga, nem o seu contrário, que não tenha sido defendido por algum pensador. Um dos raros pontos em que os sábios concordam é exatamente na paixão: se você conseguir se livrar dela, se você for forte e perseverante o suficiente para dominá-la, você vai ser um cara feliz. Não será escravo de antidepressivos e de calmantes. Não vai acordar seus amigos e amigas durante a madrugada para desabafos intermináveis. Nem se deixará entrar no egocentrismo insuportável do apaixonado, para quem a vida se resume a ela e ela. O resto, dane-se. A paixão fecha nossos ouvidos. Só falamos. Não conseguimos escutar nada e ninguém fora dos limites do nosso amor. Tente conversar com um apaixonado. Ele não vai registrar nada do que ouvir. Ele não vai derramar uma mísera lágrima pela história mais triste que você lhe contar.

Uma paixão está rondando você? Chute.
E trocará uma eternidade de angústia por um minuto de desalento. Mas -- como Montaigne escreveu – eu poderia estar aqui defendendo o contrário, com a mesma convicção.

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Escrito por Fabio Hernandez - 05/04/2008

Et nunc et semper dilectae dicatum


Pego um Balzac ao acaso. Numa época li compulsivamente Balzac, para mim o maior dos romancistas de todos os tempos. A Comédia Humana, sua grande obra, um número extraordinário de histórias e personagens reunidas em quase vinte volumes. As Ilusões Perdidas, parte deste conjunto majestoso, é meu romance favorito de Balzac. O título é tocante. As Ilusões Perdidas. Quem de nós não teve ou não tem ilusões, e quem de nós não as perdeu ou as perderá? Ah, você não leu As Ilusões Perdidas? Corra. Certas coisas a gente tem que fazer antes de morrer. Uma delas, um amigo me disse um dia, é matar uma tarde de trabalho para ver uma sessão de cinema das duas. Era o sonho daquele amigo, e ele não o tinha realizado até o dia em que candidamente me fez a confissão cinematográfica e vespertina. Outra coisa que a gente tem que fazer antes de morrer é ler As Ilusões Perdidas.
Abro ao acaso um volume da Comédia Humana. É o romance Luís Lambert. Vejo a dedicatória balzaquiana. Et nunc et semper dilectae dicatum. Agora e como sempre dedicado à mulher amada. Latim. Balzac chamava de Dilecta sua primeira amante, uma mulher casada, Laure de Berny. No romance O Lírio do Vale Laure apareceu como Sra. De Mortsauf.
Amante. Que mulher não experimenta uma vibração intensa ao realizar o sonho, a fantasia ou o pesadelo de ter um amante? Madame Bovary, de Flaubert, outro dos meus romancistas amados, e um competidor sério de Balzac como o maior entre os maiores, Madame Bovary, eu dizia, gritou quando para si mesma quando consumou o adultério. “Tenho um amante, tenho um amante”. Não terminou bem ela, e nem outras adúlteras maravilhosas da literatura, como Ana Karenina e Capitu. A Luísa de Eça, atirada ao sexo extraconjugal por seu primo Basílio. Final triste para todas. Terão os romancistas sido fiéis à realidade dura do adultério ou ao moralismo masculino? Não sei, não sei. Ouço agora Amy Winehouse. Aquele cabelo anos 60 de Amy. Love is a losing game. O amor é um jogo de perda.
Volto a Balzac. Folheio Balzac e chego a um ensaio chamado Fisiologia do Casamento. Um trecho menor de A Comédia Humana. Mas o menor de Balzac é grande. Reparo num aforismo. Reflito sobre ele, mas não chego a uma conclusão consistente. Gostaria de chamar Balzac e perguntar a ele exatamente o que ele quis dizer. “Uma mulher honesta é aquela que os amantes temem comprometer”. Você entendeu melhor que eu? Sei apenas que é uma frase de gênio. Fecho Balzac. Um compromisso me chama. Uma mulher honesta é aquela que os amantes temem comprometer. A frase, que não compreendo, me enleva pela assombrosa beleza com que as palavras se encadeiam. Eu. As coisas que escrevo. O que me inspira. Minhas palavras de escritor barato. Minhas pequenas folhas na relva. Dedico-as a ... sei lá. Balzac pode me ajudar. Et nunc et semper dilectae dicatum.

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Escrito por Fabio Hernandez - 02/04/2008

O grito que não ouvi

Ouvi ontem uma velha canção e como revi você, Fernanda. A canção, talvez lhe interesse saber, é o tema daquele filme aéreo, Aeroporto. Ouvi-a, de modo mais marcante que nunca, numa festinha a que fomos ambos, você e eu. Era uma noite de sábado leve a morna. Acho que era verão. Mas não garanto, pois todas as noites leves, mornas e, mais que tudo, saudosas parecem pertencer ao verão, como se só ao verão coubesse o privilégio das boas recordações.
A canção tocava lenta e suave, e os casais arrastavam langorosos os pés, afundando com comovente felicidade no misterioso poço da paixão. Eu me encostava a um pilar, solitário, acompanhando-a com os cantos dos olhos; e você, Fernanda, dominava com sua beleza suave o salão, o rostinho colado ao peito de um rapaz que, francamente, não merecia tê-la nos braços. Confesso que na época não via você sem que me gelasse o estômago. Raras vezes na vida esta sensação iria se repetir.

Lembro bem quando nos conhecemos. Foi na festa de 12 anos da Marisa. Era meu terceiro baile, e eu não estava adequadamente preparado para ele. Era incapaz de dançar músicas rápidas. Não havia jeito. Nas lentas, eu me virava, mesmo pisando uma ou duas vezes por minuto (o que somava cinco ou seis pisões por música) o pé azarado da parceira.
Mas nas rápidas, oh meu Deus, eu era um desastre. Mas amigo é amigo. O Laerte, baixotinho e ágil, se propôs ensinar-nos, ao Márcio e a mim, a dançar. Horas antes do baile nos reunimos no quarto do Márcio e ensaiamos as músicas que depois tocariam. Era assim: o Márcio e eu dávamos uns passos, e o Laerte nos corrigia. “Tá errado, pessoal, tá errado”. Ele nos mostrava então os passos supostamente corretos, a maneira de ir para cá e para lá. Era um espetáculo, visto agora de longe, que nada ficava a dever a uma comédia da dança. Mas nós três levávamos tudo a sério.
Foram horas de treino. O baile começou pelas oito da noite. Havia oito meninos e sete meninas. Não desmerecendo as demais, você era de longe a mais bonita, Fernanda. Usava um vestidinho amarelo e estava quietinha a um canto. Parecia preferir observar a tomar parte. Depois notei que você enrubescia a qualquer gracejo, inclusive os que não lhe eram dirigidos. Você era tímida, falava com vagar; além de péssimo dançarino, eu era tímido também. O caminho entre você e mim me parecia intransponível, como se um abismo nos separasse. Nem sei como me aproximei de você, Fernanda.
Nosso primeiro contato não foi propriamente um diálogo, mas um gaguejo sem fim.
- Prrr... a ... zer - eu disse, estendendo-lhe a mão.
- Prrr... a ... zer – você disse e, nervosa, nem tomou conhecimento de minha mão, parada no ar como uma borboleta distraída. Não nos dissemos os nomes, lembra?

Não, está claro que não foi um grande início. Quando nada, porém, serviu de ponte no abismo entre nós. Dançamos um pouco e, pelo meio da festa, apoiado no exemplo do Laerte, que pedira com êxito a Elaine em namoro, propus a você ser minha namorada. Você pediu tempo -- anos talvez -- para pensar. Pensou três minutos e, sem mostrar maior euforia, como se respondesse à chamada escolar, disse sim. Não houve um beijo comemorativo, mesmo porque eu, ao menos, não sabia beijar. Nosso primeiro passeio oficial, na mesma noite, foi uma volta ao quarteirão. Éramos três casais (o Márcio e a Cristina se acertaram), e caminhávamos a uma distância não tão longa que nos impedisse de ouvir, se não toda, o essencial da conversa alheia. Foi um passeio divertido.

Durou pouco nosso namoro, cerca de uma semana. Segunda-feira fui buscar você no ginásio, conversamos com certo desembaraço, fomos até o ponto de ônibus, você me pagou a passagem sem que eu pudesse evitar, e de notável não aconteceu mais nada. Ah, sim, trocamos um beijo singelo no rosto. Éramos dois pirralhos, eu tinha 13 anos, você sequer completara 12, talvez lhe faltassem até alguns dentes.
O namoro teve vida curta, mas o fascínio que você exerceu sobre mim sobreviveu-lhe, e foi adiante, adiante, e adiante. Quando sabia que você estava na casa da Marisa, inventava um pretexto e voava para lá. Me parece que você também guardou uma lembrança boa de mim; não ouso dizer fascínio. Soube que uma noite seu novo namorado deu uma bronca em você porque, ao me ver perto, você disse alto: “Olha o Fabio!” Fiquei, naturalmente, lisonjeado com seu grito, apesar de só ouvi-lo depois, ecoado por uma confidente.
Cresci eu, cresceu você, e acabou-se. Você diminuiu, pouco a pouco, sua freqüência à casa da Marisa, de quem fora a maior amiga, em cujos ombros chorara e gargalhara. Até que você sumiu. Eu ainda obteria, da Marisa, notícias de você. Depois de algum tempo, porém, ela mesma, Marisa, já não sabia nada. Jamais soube de vocês duas romperam, e não toquei no assunto com a Marisa. Recordar uma amizade morta é demasiado triste. Deve fazer quase dez anos que não a vejo, Fernanda, e a lembro (me perdoe a grosseria) remotamente, sem qualquer emoção que ombreie com o fantástico gelo no estômago. Nada é tão forte que resista à ausência – nem o ódio nem o amor e nem a dor.

É provável que nunca mais nos encontremos. Assim a relembrarei apenas ao ouvir os acordes lentos do tema de Aeroporto; e então relembrarei também aquela noite morna, eu sozinho, você radiante, o rostinho no peito de um garoto que infelizmente não era eu; e a volta ao quarteirão, uma palavra qualquer que a memória exume; e o grito “olha o Fabio!” que não ouvi. E é melhor que seja assim. Não quero correr o risco de vê-la mudada. Prefiro acreditar, e acredito, juro que acredito, que você será sempre a menina tímida, de olhos enormes e de vestidinho amarelo – a eterna Fernanda, a mais bela da festa da Marisa, se lembra?



Nota do autor: “Escrevi este texto aos 23 anos, dez anos depois da festa citada nele, e o achei recentemente. Nunca mais encontrei a garota que o inspirou, mas ainda hoje, muito tempo depois, a “menina tímida, de olhos enormes e de vestidinho amarelo” me vem imediatamente à lembrança quando ouço o tema de Aeroporto.”

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Escrito por Fabio Hernandez - 30/03/2008

Eu me lembro do vestido que flutuava como uma onda no chão sob seus joelhos

Pedro estava na cama, entre livros e revistas. Dormira lendo A Praia, um romance interessante no qual um casal inglês tem problemas na lua de mel no começo dos anos 60, antes da pílula e da liberação sexual. Era cedo para ele, pouco mais de oito da manhã. Desde sempre Pedro fora um notívago, capaz de atravessar com facilidade uma madrugada numa redação. Tocou seu celular, e pelo toque personalizado ele sabia quem era.
“Carol?”
“Pedro. Ouve.”
Chegaram aos ouvidos de Pedro sons difusos de uma canção. Mas Pedro a reconheceu. Era um clássico de Donna Summer, MacArthur Park.
“Ouvi essa música e tive que ligar pra você, Pedro. Não é um pretexto. Eu simplesmente tinha que falar com você. Essa música. Puxa. Ela é a nossa história.”
Carol. A bela, filantrópica, inteligente e calculista mulher de um banqueiro que preferira o casamento a Pedro. Pedro entendera e apoiara a decisão de Carol, ainda que dolorida para ele. Um jornalista, ele era apenas um jornalista. Que futuro ele poderia oferecer a uma mulher como Carol, acostumada a uma vida cara? Uma vez, quando ele viu alguma dúvida nos olhos verdes e úmidos de Carol, lembrou a ela uma cena de Casablanca. Ilse, a heroína do filme, estava em dúvida entre o amor de sua vida, Rick, um homem desajustado que tocava um bar, e o seu marido, Victor, um ativista anti-Alemanha, no apogeu do nazismo. Rick diz a ela, vivida por Ingrid Bergman em sua deslumbrante beleza, para ficar com o marido. Era um cínico, um bêbado, mas mais que tudo um idealista que fingia não crer em nada. Rick sabia que era importante na luta contra o nazismo que Victor estivesse firme e resoluto na alma, e sem a mulher isso não aconteceria. “Você deve ir com ele”, disse Rick. “Se não for, vai-se arrepender, talvez não hoje e nem amanhã, mas em breve e para sempre.” Em breve e para sempre. Pedro gostava desta fala de Rick. Com essa fala ele convenceu Ilse a seguir com o marido.
“Por que essa é a nossa história?”
“A primeira linha, Pedro.”
Ele não se lembrava da primeira linha. Ela cantou para ele. Tinha uma voz não de cantora, mas agradável e afinada.
“Spring was never waiting for us, dear. It went one step ahead as we followed in the dance.” Carol estava certa. A primavera jamais esperara por eles, esteve sempre um passo adiante.
“Nós. Nós dois. Pedro. Nós não vivemos a primavera da nossa história. Jamais alcançamos. E eu quis tanto, Pedro. Você talvez ache que eu estou falando isso só porque me sinto culpada. Não é isso, Pedro?”
Não. Pedro acreditava na sinceridade de Carol.
“Pedro. Eu vi que você era feito para mim no dia em que você me deu um beijo no rosto depois de entrevistar o meu marido lá em casa. O arrepio que eu senti. Ah, Pedro, você pensa que isso acontece sempre na vida de uma mulher?”
Pedro se lembrou de uma expressão que lera num romance de Norman Mailer. Há uma única vez na vida de uma mulher em que um cara entra numa sala e parece a ela que um macaco está se mexendo em seu estômago.
“Você não errou, Carol. Foi só o tempo que errou. Cheguei na hora errada. A festa era à noite, e eu cheguei de manhã.”
Agora ele se lembrava quase que por inteiro da letra da música que fizera Carol telefonar para ele. Um verso parecia feito para Carol. I recall the yellow cotton dress floating like a wave on the ground beneath your kness. Me lembro de seu vestido amarelo de algodão flutuando como uma onda no chão sob seus joelhos. Uma vez foram ao Parque do Ibirapuera tomar sorvete na barraca de um italiano mal-humorado. Num determinado momento Carol se ajoelhou na grama, olhou para o céu, fechou os olhos e respirou fundo, como se estivesse meditando ou rezando. Seu vestido não era amarelo, e nem de algodão, mas também ele flutuou como uma onda ali no Ibirapuera.
“Pedro. Tem um verso que eu não sei se é uma metáfora, ou se é literal. Someone left the cake out in the rain. I don’t think that I can take it cause it took so long to bake it, and I’ll never have that recipe again. O que você acha?”
Alguém deixou o bolo na chuva. Não sei se vou suportar isso, porque me custou tanto fazer o bolo, e a receita está perdida para sempre. Mais ou menos isso. O que se perdera: o bolo mesmo num passeio a um parque, ou a receita de um amor único? O que o autor quisera dizer? Pedro preferia a hipótese romântica.
“Uma imagem. Quer dizer, acho que é.”
“Nós. Nós perdemos o bolo, Pedro?”
“Por que tantas perguntas difíceis, Carol? Por que você não me pergunta apenas se estou feliz?”
“Você está feliz, Pedro?”
“Sim, estou feliz. Feliz da melhor maneira possível.”
“Melhor maneira possível?”
“Brincadeira. Apenas estou feliz.” Pedro estava citando uma frase da peça Anjos na América. Uma mulher diz que está feliz da melhor maneira possível. “De mentirinha”.
“Pedro?”
“Carol?”
“A última frase. Eu também sempre vou me perguntar por quê.”
Ele riu. A frase final de MacArthur Park. After all the loves in my life, you’ll still be the one, and I’l l ask myself why.” Depois de todos os amores de minha vida, você será sempre o maior, e eu me perguntarei por quê. Essa última pergunta era pungente. Por que um amor fracassa? O tempo sempre erra, como acontecera com Carol e Pedro?
“Eu também, Carol. Eu também vou me perguntar sempre por quê.”
“Pedro. Tenho que desligar. Vai começar uma reunião aqui na minha empresa. Jura que nunca vai me esquecer. Mesmo que você saia com cem mulheres. Jura que nunca vai me esquecer.”
“Como eu poderia te esquecer, Carol? Aquele vestido flutuando como uma onda no chão sob os seus joelhos dobrados. Como eu poderia esquecer você, Carol?”


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Escrito por Fabio Hernandez - 26/03/2008

Cerimônia de adeus


A vida de um homem é dominada por dois ou três acontecimentos fundamentais. Não mais que isso. Um dos personagens literários mais notáveis do século passado, Harry Angstron, o Coelho, vivia preso aos dias de glória como jogador universitário de basquete. A morte afinal o encontrou, já alquebrado pelo longo passar dos anos e com o coração avariado como um velho motor retificado, na tentativa de fazer uma última cesta numa quadra pública de uma rua qualquer dos Estados Unidos. (Acho um absurdo que o criador do Coelho, o americano John Updike, não tenha recebido o Nobel de Literatura. Se ele tivesse nascido num país exótico e escrevesse numa língua estranha, já teria recebido talvez dois Nobéis.)

Outro ser superior da criação literária, Jay Gatsby, de Fitzgerald, também vivia acorrentado a um único fato do passado: o namoro com Dayse, a calculista mulher por amor da qual ele enfim se arruína e morre. Ainda hoje me comovo ao lembrar das palavras finais de Fitzgerald em Gatsby: estamos condenados a remar sempre para o passado.

Sim. Dois ou três acontecimentos vitais comandam a vida de um homem com a força e quase sempre a crueldade de um cossaco russo. Essa reflexão barata me ocorreu depois que meu irmão Eddy me convidou para ver em sua casa uns velhos slides que achara depois de quase 20 anos. (Nesses tempos de câmeras digitais, os slides soam tão obsoletos quanto um par de galochas.)

As cenas recapturadas por Eddy se centravam numa única época. Se fosse sintetizar essa época, diria o seguinte: os últimos dias em que fomos felizes. Eram os tempos finais de meu pai tal como o conhecemos: exuberante, cheio de vida, óculos de aro preto grosso, o nosso refúgio e o nosso centro. Logo depois ele ficaria doente e, em poucos meses, estaria morto. Então, ao ver resgatadas aquelas imagens de dias felizes, me ocorreu que a minha vida foi dominada por um acontecimento: a morte de meu pai. Talvez não só a minha. Meu irmão Eddy, o fotógrafo daqueles slides, abandonou a máquina fotográfica. Minha irmã Mari parou de tocar violão, ela que tocava e cantava com beleza assombrosa. Tenho a tese de que Mari parou de cantar porque perdeu a única platéia que para ela importava. Nunca vou ser capaz de expressar a admiração e o amor que senti por Mari quando ela, nos minutos finais de meu pai, encontrou forças para cantar, baixinho como convém a um ambiente terminal de hospital mas com absoluta firmeza, as músicas que ele adorava ouvir na voz inspirada da filha. Era um repertório antigo, e lindo. “Naquele bairro afastado, onde em criança vivia a remoer melodias de uma ternura sem par...” Deus, até essa música Mari conseguiu cantar naquela cerimônia de adeus num quarto de hospital. Eu lembro de cada momento naquela noite. O que escrevi num guardanapo minutos depois da morte de meu pai, com minha bic de jovem repórter: "Foste um bravo. Em nenhum momento te entregaste. De teus lábios macerados jamais saíram queixas. Repousa agora, Leão."

Vejo nos slides como meus irmãos temporões, Juan e Rita, alegraram os últimos anos de meu pai. Sinto uma ponta de inveja ao ver uma imagem em que ambos, crianças ainda, estão aninhados em meu pai. Nós quisemos tanto proteger aquelas duas crianças da dor excruciante de perder o pai numa época em que a gente só deve ser feliz, e no entanto não conseguimos proteger nem a nós próprios. Nós não contamos a eles que o papai ia morrer, e juro que foi por amor. Depois algumas vezes eles nos cobraram a falta de informação. Teriam aproveitado melhor a companhia do papai, mas, Deus, como dizer a duas crianças que seu pai está no fim?

E me vejo a mim, numa das últimas festas de fim de ano com meu pai vivo. Estou ali num canto, vestindo uma camisa de seda cafona, aberta pelo menos mais um botão além do razoável. Ainda não uso óculos, e um certo ar carregado em minha expressão sugere que alguma coisa me inquietava, me angustiava. É como se eu estivesse olhando mais para a frente e percebesse que logo ali, uma curva adiante, dias longos de desamparo e solidão e vã interrogação esperavam o jovem de sobrancelhas grossas que sonhava ser escritor.



Dedicado a Emir Macedo Nogueira

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Escrito por Fabio Hernandez - 25/03/2008

“Mulher nenhuma que me bateu teve uma segunda chance”

Estou com uma Marie Claire nas mãos. Edição americana. Já disse alguma vez que revistas são um dos maiores amores de minha vida? Acho que sim. A visão de uma banca de revistas me comove. Não sei imaginar como seria a minha vida sem revistas. Vejo na MC uma foto de Amy Winehouse ao lado do marido. Ele tinha sido claramente surrado por ela. “No, no, no”, talvez ele devesse ter dito. Lol. A reportagem diz que é cada vez mais comum homens apanharem de mulheres, Um estudo citado diz que há quase 30% de chances de um cara apanhar da mulher ao longo da vida.

Sou cético em geral. Mas não duvido disso. Você, leitor ou leitora, talvez tenha uma história para contar. Tem? Caso queira compartilhar, sinta-se em casa.

Quanto a mim. Me ocorre uma passagem de John Le Carré, um dos meus romancistas amados. Le Carré foi o mestre supremo da espionagem na Guerra Fria, naquele tempo em que Estados Unidos e União Soviética pareciam estar a um passo de se destruir – e ao mundo. Le Carré, inglês, escreveu naquela época o maior clássico da espionagem, O Espião que Saiu do Frio. Você não leu? Deveria. Dizem, os eruditos, que romance de espionagem é literatura baixa, mas Le Carré fez grande arte. A cena mais bela de O Espião que saiu do Frio é passada no Muro de Berlim, numa tentativa heróica e vã de fuga. Le Carré é um escritor tão bom que sobreviveu ao fim da Guerra Fria. O Jardineiro Fiel é dele, foi escrito muitos anos depois da queda do Muro e do fim da União Soviética, e é um livro ótimo, muito acima do filme de Fernando Meirelles.

Bem, de volta à reportagem da revista Marie Claire. É de Le Carré, pela fala de um personagem, a reflexão mais sábia que já li sobre mulheres agressivas em suas incursões sobre homens. Disse o personagem de Le Carré: “Mulher nenhuma que me bateu teve uma segunda chance”. Admito que não li essa frase no momento ideal. Tenho Sêneca, Marco Aurélio e Montaigne ao meu lado. São meus filósofos prediletos, e quantas vezes me trouxeram calor em noites frias e arrastadas, aquelas em que você procura algum sentido para as coisas e a resposta que lhe vem é um silêncio gritante. Gracias, amigos. E digo, tranquilamente, que a frase de Le Carré, pela imensa carga de sabedoria prática, poderia ter sido escrita por qualquer um deles.

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Escrito por Fabio Hernandez - 20/03/2008

Bater os braços, bater os braços, bater os braços

A mulher pode implicar com qualquer coisa nossa. Com nossos amigos. Com nosso carro. Com nosso cachorro. Com nossa mania de discutir sobre futebol como se fosse uma coisa realmente séria. Até com nossa mãe – que na verdade sempre acha, quase nunca com razão, que somos muito melhores que aquela mulherzinha que lhe impingimos como nora. A mulher pode implicar com tudo que quiser. Exceto uma coisa: o pai.

A pior coisa que uma mulher pode fazer pelo romance é implicar com o pai do namorado, marido ou o que seja. Porque o pai é a figura central na vida de um homem. O pai é nosso modelo desde o berço até o caixão. Nós passamos a vida inteira querendo fazer bonito para as mulheres. (Me lembro do tombo espetacular de bicicleta que meu irmão Ed Hernandez levou aos 8 anos na tentativa de impressionar a Fernanda. Duro mesmo foi levantar-se do chão, não chorar de dor e, com o resto de dignidade que sobrava, subir de novo na bicicleta e voltar para casa, onde minha mãe lhe deu um banho que lhe arrancou gritos assustadores.)

Mas eu dizia o seguinte antes de ser interrompido por mim mesmo e minhas divagações pretéritas. Nós passamos a vida inteira querendo impressionar as mulheres. Mas o julgamento de nenhuma mulher, por mais amada que seja, tem para nós o mesmo impacto do julgamento do nosso pai. A reprovação paterna é cruel como um velho cossaco russo. (Meu Tio Fabio, um homem sábio do interior, dizia que os velhos cossacos russos eram cruéis. Nunca chequei, mas confio em meu tio, e então acredito na crueldade cossaca.) E poucas coisas se igualam, em toda a nossa vida, à aprovação paterna. A maior platéia de um homem é composta de uma só pessoa: seu pai.

Um amigo meu jogava futebol. Futebol sério. Não essas peladas de cervejeiros nos finais de semana. Batia de canhota. Jogou em estádios cheios, com torcida fazendo batucada. Ele me disse uma vez que, durante jogos, sempre olhava para as arquibancadas à procura de seu pai. Importava menos a opinião de seu técnico do que a de seu pai. Cada grande jogada que fazia ele pensava no pai. E quando perdeu um gol decisivo ele ficou arrasado porque sentia que decepcionara seu pai. Sempre entendi esse meu amigo perfeitamente.

Numa certa época da vida, na adolescência, gostamos de contestar o pai. Mas é uma contestação de mentirinha. Somos, na adolescência, idiotas sem juízo, ignorantes presunçosos. Mas esse estado de torpor intelectual não dura uma vida inteira.
Envelhecemos, graças a Deus. E logo aprendemos que nosso pai estava quase sempre certo nos reparos que nos fazia em nossa adolescência. Matamos o pai, adolescentes, para ressuscitá-lo, ainda mais forte, na idade da razão.

E então digo a todas as mulheres do mundo interessadas num bom relacionamento amoroso: não mexam com o pai dele. Se não bastassem todas as razões que alinhei, haveria ainda uma outra. O nosso pai, ao contrário da nossa mãe, quase sempre é aliado da namorada. Porque ele tem a esperança de que ela possa trazer juízo para o filho. Possa transformar o garoto num homem. No mais das vezes, para citar uma frase de La Rochefoucauld que já utilizei outras vezes, é o triunfo da esperança sobre a experiência. (Engraçado. Acho que numa outra ocasião eu disse que o autor da frase era Dr. Johnson, um inglês genial.)

E agora a parte triste. Quem quer coisas alegres mude agora, por favor, de página. A morte do pai atira o homem num persistente estado de desamparo do qual ele leva anos, décadas para se livrar. Às vezes, nunca se livra. Pai morto. E então me ocorre a idéia de uma onda. Para enfrentá-la é preciso bater os braços, bater os braços e ainda bater os braços. Para onde as braçadas levam? Francamente não sei, mas o que importa? O que importa é bater os braços, bater os braços e ainda bater os braços.

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Escrito por Fabio Hernandez - 15/03/2008

O passo apressado das paulistanas

Roberta acendeu um cigarro, tragou em cima do rosto de Pedro e lhe perguntou se ele não se incomodava com a fumaça. Estavam num restaurante de São Paulo que parece de praia, cheio de gente barulhenta e alegre. Pedro tinha comido frango com cheddar, seu prato predileto. Roberta, vegetariana, comera apenas uma salada. Ela era pouco mais que uma garota. Viera de longe para São Paulo em busca do sonho de trabalhar em revista. Crescera sob o fascínio da leitura de revistas que a faziam viver mil vidas e viajar a múltiplos lugares, e inspiravam nela ora risadas e ora lágrimas.

“Ok, meu pai fumou em cima de mim a vida inteira”, disse Pedro. “Pode ir em frente.” Quando era menino, Pedro dormia na casa da praia no mesmo quarto que seu pai, num beliche precário. O pai na parte de baixo, ele na parte de cima, e a fumaça dos sucessivos cigarros que seu pai acendia subia até Pedro e de lá parecia não sair a noite toda. Pedro jamais fumara, mas gostava do cheiro da fumaça do cigarro barato que seu pai fumava, Continental sem filtro. O cigarro deixara amarelos os dedos com que seu pai os segurava, e um gosto acre em sua saliva. Quando Pedro era pequeno, o pai limpava as pontas da boca do filho com saliva, e aquele gosto era uma das lembranças mais fortes que Pedro tinha do pai. Outra memória forte eram os óculos de aro preto e grosso. No caixão o pai estava sem óculos, e Pedro tratou de procurá-los. Encontrou e os colocou no pai, certo de que ele gostaria.

Roberta procurara Pedro em busca de conselho. Não sabia se voltava para sua cidade ou ficava em São Paulo. Pedro não concebia a vida fora de São Paulo, onde nascera, crescera e esperava morrer. Ir numa segunda-feira chuvosa à Vila Madalena e encontrar ali bares lotados era, para ele, um símbolo da glória paulistana. Como Nova York, São Paulo é uma cidade que não dorme. Não há Dormonid que faça São Paulo dormir.

“Li outro dia. No mundo moderno a escolha da cidade morar é uma das coisas mais importantes que a gente faz para definir nosso futuro”, disse Pedro. “Existem cidades que vão jogar você para baixo, ou manter você na mesma altura em que já está. São Paulo dá a você a chance de ganhar os ares, se elevar até onde os pássaros voam.”

“Mas eu sinto tanta falta da minha cidade”, Roberta disse. “Quando vou para lá não deixo minha mãe me ver fazendo as malas para voltar. Nós choraríamos abraçadas. Também não deixo ninguém ir ao aeroporto para se despedir. É um trato. E sei lá. São Paulo intimida. O passo das paulistanas. É muito apressado.”

Roberta fez uma pausa para tragar o cigarro. “É verdade que intimida mas ao mesmo tempo fascina. Será que vou fazer parte da paisagem de São Paulo algum dia?”

“Já faz, Roberta. Você está completamente integrada na paisagem deste restaurante, por exemplo. Olha só. Você e o seu cigarro e a sua fumaça e a saudade da sua pequena cidade.”

“Fiz certo ao vir para São Paulo? Às vezes não durmo só de pensar nisso. Você, Pedro. Você foi um dos culpados por eu ter vindo.”

“Já tenho tanta culpa para carregar”, Pedro disse. “Também essa?”

“Algumas coisas que você escrevia”, ela disse. “Eu recortava. Muitas vezes eu chorei com elas.”

“Riu também? Sou um comediante frustrado. Tudo que eu queria era fazer as pessoas rirem, como em Friends ou Seinfeld. Fracassei.”

“Pedro. Vou ser sincera. Como comediante você é um fracasso total. Uma incompetência assombrosa.”

Ele riu. “Olha. Acho que você deveria mesmo voltar para sua cidade. São Paulo vai engolir você.”

“Já engoliu”, ela disse. “E eu gostei. Gostei muito.” Ela estava rindo agora. A melancolia desaparecera de seus olhos, e ela parecia convicta de que seu destino de mulher era São Paulo, a cidade que intimida e fascina.

“Você não disse que eu era incompetente para fazer rir?”

“Pedro. Na verdade você devia estar no Cirque Du Soleil. Você é um, sei lá, você se finge de um cara triste, mas na verdade é um ... olha, Pedro, você é um mestre ... um mestre na arte de ser palhaço.”

O humor instantâneo. Roberta já era uma paulistana, também ela já andava com passos apressados, e apenas não se dava conta ainda disso.

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Escrito por Fabio Hernandez - 12/03/2008

A última vez que vi Kátia


Sempre admirei a sabedoria matuta de meu tio Fabio Hernandez. (Sou Fabio Sobrinho, caso você não saiba. Tirei o sobrinho de minha assinatura – ou melhor, tiraram – porque meu primeiro chefe no jornalismo disse que minha assinatura ficaria muito comprida. Meu chefe assinava com seus três nomes, mas as regras para chefes não são as regras para principiantes.) A primeira namorada séria que apresentei à família, numa festa de aniversário de minha avó, mereceu de Tio Fabio um comentário privado. Ele me chamou a um canto, grave como sempre, colocou as mãos nos meus ombros e começou a falar. Pensei que Tio Fabio, um apreciador das belas mulheres por excelência, fosse elogiar a maravilhosa forma física de Kátia, uma morena capaz de fazer um padre engasgar no santo vinho. (E naquela noite Kátia estava espremida num vestidinho preto que parecia capaz de ir pelos ares se ela se atrevesse a encher uma bexiga como as que enfeitavam a festa.)

Mas não. Tio Fabio apenas me disse: “As mulheres não mudaram nada, meu filho. A diferença é que antes elas não fingiam que eram seguras e agora elas fingem que são”. Ele esperou um pouco para ver se a mensagem tinha sido assimilada por seu sobrinho favorito. Quando rememoro a conversa, lembro que fiquei com cara de tolo surpreendido depois da sentença de meu tio, eu que tinha ouvido de minhas colegas feministas na faculdade toneladas de louvação aos seus avanços, expressos em evidências como piercing no umbigo, tragadas na frente do pai e namorados no quarto. Mas presumo que Tio Fabio tenha tido uma interpretação diferente da expressão de meu rosto aparvalhado, pois seguiu em frente como se convencido de que eu tinha absorvido cada palavra. “E a maneira mais fácil para elas fingirem segurança é contestar a opinião que nós emitimos.”


Tio Fabio tinha até umas estatísticas que conferiam ares científicos aos seus argumentos. “O índice de contestação começa em 10%. Em três ou quatro meses, se nada for feito, chega a 50%. Daí a 100% é um pulo.” Eu estava fazendo minhas contas quando Tio Fabio encerrou nossa conversa privada com uma frase de precisão assustadora. “Notei que sua namorada já está perto dos 100%. Parabéns a ela pela rapidez.” Tio Fabio tinha seus momentos de ironia. Foi aí que me dei conta de que naquela noite de festa familiar Kátia tinha contestado quatro das cinco opiniões que dei. Se bem me lembro, foi neutra na outra. Aquela foi a primeira e a última reunião da qual a maravilhosa Kátia – oh, aqueles seios indomáveis, ávidos por romper qualquer coisa que os aprisionasse – participou em minha família. Nosso fim definitivo veio poucos dias depois, quando Kátia quis porque quis que eu a acompanhasse num passeio com seu irritante bassê durante um jogo do Corinthians.
Foi a última vez que vi Kátia.

Aprendi com Tio Fabio, deus o tenha, se deus existe, que um homem pode muitas coisas, menos se deixar submeter à tirania de uma mulher, mesmo que essa tirania nada mais seja que uma máscara da insegurança. Deixamos de ser tiranos há muito tempo e não há o menor sentido em sermos agora tiranizados. Vi várias vezes o próprio Tio Fabio lavar a louça para poupar Tia Magdalena. Também o vi satisfazer, carinhoso, caprichos dela. Uma vez Tio Fabio rodou a cidade, madrugada afora, para encontrar um pacote de Calipso. Tia Magdalena, que era esguia mas com o tempo foi ficando cada vez mais fora do peso ideal, era capaz de comer um pacote inteiro daquelas esplêndidas bolachas de chocolate enquanto via um capítulo da novela das 8.

Mas – eis a diferença vital – Tio Fabio lavava a louça e corria atrás do biscoito porque queria. Não porque minha tia lhe ordenasse. Os homens foram ontem tiranos de suas mulheres? Isso não é razão para que as mulheres sejam hoje tiranas de seus homens. Se os homens lá para trás cometeram absurdos, eu, você, nós não podemos ser o objeto de uma vingança tardia e despropositada de nenhuma mulher. Nem donos, nem servos. Se a agressividade moderna é fruto da insegurança milenar das mulheres, eis um problema que cabe a elas resolver, não a nós. A nós cabe simplesmente dar um chute no traseiro de cada Kátia – oh, e que traseiro aquele – que queira nos transformar em capachos.




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Escrito por Fabio Hernandez - 09/03/2008

Meus dedos discaram seu número sem que eu pudesse detê-los

“Pedro? Carol. Pode falar?”
Como se ele não pudesse falar com Carol. Pedro sempre pudera. Jamais deixara de atendê-la, mesmo quando não deveria.
“Claro, claro.”
“Olha. Eu tinha decidido não ligar mais para você. Terminamos e pronto. Mas. Sei lá. Fiquei chateada com o que você escreveu sobre mim. Tinha que falar com você.”
Pedro parou para pensar. Que se lembrasse, só escrevera coisas doces sobre Carol. Mesmo quando ela decidira ficar com o marido banqueiro e deixá-lo Pedro, pelo menos assim pensava ele, fora doce. Apoiara a decisão dela.
Ou não?
Sim, fora doce, agora tinha certeza. Poderia ter dito que ela era calculista. Que colocava o dinheiro do marido banqueiro antes do amor. Mas não. Aceitara a escolha dela, e no conto em que narrara a despedida sublinhara a beleza, a inteligência e a classe natural de Carol.
“Que eu escrevi, Carol?”
Pedro sabia que a possibilidade de desagradar alguém ao escrever era muito maior que a de agradar. Mas não havia nada que pudesse fazer em relação a essa maldição dos escritores.
“Você me tratou como uma mulher frívola, fútil. Como, como, como. Como uma simples mulher de banqueiro. Como se eu tivesse me casado com ele por interesse. Como se eu fosse uma vulgar alpinista social. Foi vingança, não foi, Pedro? Você me descreveu daquele jeito para se vingar de mim. Olha. Eu nem deveria ter ligado para que você não soubesse que me magoou tanto. Mas meus dedos discaram seu número sem que eu conseguisse detê-los.”
Pedro desligou o aparelho de som em que ouvia Seems Like Old Times. Parece como nos bons tempos. Era uma de suas músicas favoritas, e era em Carol que estava pensando enquanto escutava Seems Like Old Times. Não imaginava que ela fosse telefonar para ele, e várias vezes se controlara para não ligar para ela. Era um acerto entre os dois. O marido poderia ficar desconfiado. Era ela quem lhe telefonava. Ele não rompeu a regra mesmo depois de separados por uma espécie de respeito póstumo. Ao mesmo tempo em que desligou o aparelho, riu. Sua intenção fora escrever um tributo de amor, não uma vingança.
“Pedro. Sempre achei você melhor falando do que escrevendo”, Carol disse. “Outras mulheres podem achar o contrário, mas meu Pedro sempre foi aquele cara que falava, não o que escrevia. Daquele Pedro eu sinto saudade de vez em quando, admito. Do que escreve tenho raiva.”
“Eu também tenho raiva do que escrevo com mais freqüência do que você imagina, Carol. Se eu soubesse fazer outra coisa que não fosse escrever já tinha parado há muito tempo, Carol.” Pedro gostava de falar “Carol”. Era um nome que ele achava que soava bem. Curto, forte. E tão bonito quanto a dona.
“Mulher de banqueiro. Frívola. Pedro. Você quis me ridicularizar? Você sabe que eu sou uma guerreira. Tenho meu próprio negócio. Que eu montei antes de conhecer meu marido. E é com o dinheiro do negócio que sustento muitas pessoas. Mulher de banqueiro. Você usou essa expressão para me insultar, não foi, Pedro? Se você soubesse como me fez chorar quando eu li aquilo. Meu marido me perguntou por que eu estava chorando, e eu não podia dizer que era por sua causa. Ele queria me consolar, mas isso me irritava ainda mais. Não existe coisa pior que ser confortada por um homem quando você está chorando por outro.”
Pedro gostou da frase. Não existe coisa pior que ser confortada por um homem quando você está chorando por outro. Um dia a usaria em algum conto ou romance que escrevesse.
Pedro ficou calado. Não adiantava dizer que não. Carol jamais se deixara convencer fácil, e muito menos quando estava com raiva. Ele de fato quisera agradá-la ao escrever sobre o caso de amor entre os dois, mas ela jamais acreditaria nisso. Uma jornalista amiga dele, editora de uma revista feminina, dissera que o conto daria um filme.
“Pedro. Eu não sou nenhuma Pattie.”
Ele riu. Pattie. A linda e preguiçosa mulher de George Harrison. Era modelo, e parou de trabalhar quando se casou com George. Pattie trocara George por Eric Clapton. George mantinha uma conta para Pattie na Harrods de Londres. Depois que ela partiu para Eric foi um dia à Harrods, fez uma supercompra e ficou surpresa ao saber que George encerrara a conta. Lol. Na autobiografia de Pattie, que Pedro leu e depois passou para Carol, esta história estava contada com candor.
Ela riu ao falar de Pattie. Pedro adorava o som de sua risada ao telefone. Em momentos de tristeza ele se confortava ao ouvir a risada de Carol ao telefone.
“Pedro?”
“Carol. Carol?”
“Sinto falta das nossas conversas sobre livros. Terminei de ler outro dia um Proust e queria tanto ligar para você.”
Proust. Ocorreu a Pedro uma frase proustiana. Os refrões da felicidade perdida. Por que a gravara entre tantas outras frases de Proust? Proust antes de virar escritor pensara no direito, mas depois refletira que por mais que se esforçasse não podia imaginar nada pior que um escritório de advocacia. Lol.
Carol fora da raiva à nostalgia. E agora silenciava. Teria desligado?
“Carol?”
Passaram-se alguns segundos, até que a voz dela se ouviu.
“Pedro. Você está apaixonado por outra mulher?”
Pedro riu.
“Boba. Sabe aquela música? Pois é. Vai valer sempre. Mesmo você longe, perdida, para sempre perdida, nas terras frias do nunca mais, nunca mais, nunca mais. Mesmo assim. Você é a primeira, a última, tudo.”

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Escrito por Fabio Hernandez - 06/03/2008

Parece que estou batendo na porta do paraíso

E então estou a caminho da apresentação de Dylan. No carro começa a preparação. Ouço primeiro uma de minhas canções prediletas de Dylan, Knocking on Heaven’s Door. Batendo na porta do paraíso. Melodiosa, e triste, e com uma letra poética como quase sempre acontece com Dylan. Foi feita para um filme sobre Billy The Kid, o jovem e rápido e ambíguo pistoleiro que virou mito no velho oeste americano. Morto jovem, por mãos traiçoeiras. A letra é uma conversa entre a mãe de Billy e o filho jovem à morte. Melhor: é Billy falando pela última vez com a mãe. Um lamento. Na parte final, que vou traduzir precariamente, Billy diz. “Mamãe, jogue minha arma no chão. Não posso atirar mais. Aquela longa e velha nuvem escura está descendo. Parece que estou batendo na porta do paraíso.” Admito que fiquei arrepiado apenas de escrever este trecho.

Depois ouço outra grande canção de Dylan, já perto da casa de espetáculos em que ele cantará. Just like a woman. Exatamente como uma mulher. O refrão é sábio, e a melodia é tão suave como a de Knocking on Heaven’s Door. Dylan fala de uma jovem mulher. Ela faz amor como uma mulher, sente dor como uma mulher, mas desmorona exatamente como uma garotinha. But she breaks just like a little girl. Estou pronto para o espetáculo do homem que meu ídolo maior, George Harrison, chamou de The Man, o Cara. A última vez que vi Dylan foi num dvd, A Última Valsa. É um documentário soberbo de Scorcese sobre a derradeira apresentação da The Band, e Dylan é um dos convidados. Ele canta uma música, Forever Young, composta para o filho. No palco, os músicos da The Band, que acompanharam Dylan num certo momento e depois seguiram seu caminho, o olham com devoção.

Mas ver num dvd é uma coisa e ao vivo é outra. A platéia parece estar não diante de um músico, mas de um herói. As pessoas não estão ali apenas para ouvir Dylan, mas para reverenciá-lo. Com suas pernas finas, um chapéu preto, Bob Dylan sobe ao palco com pontualidade. Cinco músicos o acompanham, e apenas um deles não usa chapéu, me pergunto por quê. Terá esquecido? Gostará de ser diferente? Terá apreço por desafiar o mestre? Ou será que apenas esqueceu no hotel o chapéu? Às 22h11, como vi no relógio do celular, sem dar boa noite à platéia, Dylan executa a primeira música. “Ele pode não cumprimentar”, aceita meu amigo Thunder, mexendo em sua barba de Hemingway e enchendo de água seu copo de uísque escocês. “Ele pode fazer tudo.”

Dylan é um excêntrico, um cara realmente diferente. Não faz concessões ao público. Vi Paul McCartney no Pacaembu há alguns anos, e ele cantou músicas de sua era beatle. E com arranjos rigorosamente iguais. Se você fechasse os olhos, sonhava ver John, Paul, George e Ringo no palco. A platéia quer isso. Não há show dos Stones em que você não ouça Satusfaction, ou Jumping Jack Flash, ou Gimme Shelter, ou Start me Up. Os artistas fazem esta concessão ao público, e o preço pode ser caro para eles. Sinatra uma vez disse que detestava cantar My Way e Strangers in the Night, e eram as músicas que ele mais cantava a pedido do público.
Vocês já imaginaram um comediante que conte sempre a mesma piada?

Dylan faz um espetáculo de uma hora e meia, e depois dá um bônus de duas canções diante de solicitações de bis insistentes. Imagino umas 25 músicas, e não mais que três ou quatro são as clássicas. E mesmo estas Dylan as canta de uma maneira completamente diferente. Presumo que para não se entediar. Meu amigo Ruivo lembra que num espetáculo dos Stones em São Paulo, há alguns anos, Dylan, que por coincidência estava na cidade, subiu suroreendentemente ao palco para cantar Like a Rolling Stone. É para muitos sua melhor composição. A maior revista de música do mundo a colocou na primeiríssima posição entre as 500 canções da história do rock. Os Stones a gravaram anos depois de Dylan lança-la, e outra vez foi um sucesso. Acompanhado pelos Stones, Dylan cantou Like a Rolling Stone. Jagger ia fazer um dueto, mas foi derrotado pela interpretação diferente de Dylan. Uma cena histórica e hilariante.

A questão. Dylan assassina as próprias músicas? Lembro-me de ter lido num jornal ou numa revista americana uma crítica sobre uma apresentação de Dylan. O crítico dizia que como um açougueiro cruel Dylan ia despedaçando e desfigurando suas próprias canções diante de um público impotente para as salvar. Ele assassina suas canções, as reinventa, ou salva a si próprio de ser um escravo de platéias viciadas em sucessos? Fico com a última alternativa. Meu amigo Thunder não reconhece nenhuma das músicas de Dylan, mas fica em seu ponto. “Ele pode tudo. É um herói. Começou rouco, e foi até o fim. Um herói. Você tem que escrever sobre ele, Fabio.”

Like a Rolling Stone é um dos raros clássicos de Dylan esta noite. A melodia está alterada. Uma jovem mulher sobe ao palco, tenta chegar a Dylan, e é detida perto dele. Dylan faz cara de surpresa, e ergue levemente as mãos para se proteger. Não foi necessário. Um segurança colocou a fã indomável em seus ombros e a retirou tão suavemente como foi possível. Os pés dela se balançavam nos ombros do segurança no ritmo da música. “Eu teria pedido um tempo para a platéia e cuidado dela no camarim”, diz Ruivo, líder de uma banda nova de São Paulo. Thunder, com sua barba hemingwayana, apóia Ruivo. Eu também.

Duas músicas de bis, e o final. Dylan, que não dissera nada até ali para a pletéia, curva levemente a cabeça para se despedir. Fico com a sensação de que os críticos vão dar cacetadas em Dylan. Será que acertarei? Num determinado momento, Dylan trocou a guitarra por um piano. Segundo meu amigo Thunder é porque ele não agüentava o peso da guitarra nos ombros tanto tempo assim. Terá Thunder chutado? Sei lá. Perto da porta que vai dar no camarim, Supla tenta levar os seguranças no bico para ver Dylan. Demora, mas consegue.
“O que vimos hoje não foi um show”, diz Thunder. “Foi história. Você tem que escrever sobre isso, Fabio.”
“Escrever o quê?”, pergunto.
“Problema seu”, ele diz. Na saída, ouço Knocking on Heaven!s Door. A versão original. Parece que estou batendo na porta do paraíso.










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Escrito por Fabio Hernandez - 03/03/2008

Ninguém confiou tanto em mim



Enfim te vejo. Enfim repousa em ti o meu olhar cansado. Esses versos de Bandeira me ocorrem quando entro na velha cidade em que vivi alguns verões na adolescência. Rodo em meu carro pelas ruas em que caminhei garoto. Não fui eu que levei o carro. Foi o carro que me levou. Alguns lugares marcam a vida de um homem por diversas razões. Aquela cidade selou minha passagem para a vida adulta. Ali terminou a minha era da inocência. Foi nela que as mulheres passaram a despertar um interesse bem mais concreto e menos platônico em mim. Lembro uma visita, a primeira em minha vida, ao que nós meninos chamávamos afetuosamente de zona.

Na minha lembrança a cidade estava sempre ensolarada. E assim sempre será. Paro em frente da casa dos meus tios, onde ficava hospedado. É numa esquina de um bairro de classe média. Nenhuma das pessoas que tanto amei está lá, mas ainda assim fico tocado. Olho para a casa com uma espécie de desespero mudo como se por um milagre aquele mundo perdido pudesse se refazer. Primeiro morreu meu tio, depois minha tia. Outra tia, agregada, uma adoravelmente rabugenta solteirona, também morreu. Meus dois primos deixaram a cidade, cada qual para um canto. Mas de alguma forma naquela casa de esquina a família desfeita está viva e unida. O piano em redor do qual todos se juntavam ainda toca.

Naquela casa tive uma sublime lição de fé. Eu tinha tomado um porre, o primeiro de minha vida. Tinha 16 anos, a noite quente convidava um garoto virgem de álcool a tomar um copo de batida, e depois outro, e mais outro. Convidava, não: ordenava. Ao deitar, no quarto imaculado da casa de minha tia, o mundo girou alucinadamente. Não havia nada que eu pudesse fazer senão vomitar. Foi um tumulto num lar sereno. Aleguei depois que tinha me dado mal com alguns amendoins. Meu tio comentou com minha tia, longe de mim, mas não o suficiente para que eu não ouvisse: “Isso tem cheiro de cachaça.” Meu tio conhecia o assunto.

Somente a tia solteirona acreditou. Durante anos, depois, sempre que me via esticar a mão para um amendoim, ela me lembrava de que não me fazia bem. Minha tia solteirona. Minha amada tia solteirona. A gente coleciona coadjuvantes ao longo da vida. São raros os protagonistas. Minha amada tia solteirona foi protagonista em minha vida. Foi ela que me ensinou a jogar baralho, uma virtude que cultivo desde então. Primeiro o buraco, logo e sempre o pôquer. Escritor barato e jogador igualmente barato.

Mas ela me ensinou sobretudo o significado da fé. A fé só é fé mesmo quando é cega e desafia a lógica. Ela acreditou no sobrinho bêbado a despeito do cheiro de cachaça facilmente identificado por meu tio. Minha amada tia rabugenta. Estou ali, na frente da casa, tantos anos depois. E me ocorre que poucas vezes em toda a minha vida alguém acreditou tanto em mim como ela, a amada tia solteirona. Se eu pudesse recompor aquele mundo perdido, acho que a primeira coisa que faria seria pedir colo a ela. Eu mesmo não acreditei em mim como ela. Minha amada tia solteirona apostou num cara errado, eu, por amor. Simplesmente por amor. Tia Tetê, eis o nome, para mim tão poético quanto os versos de Bandeira.

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Escrito por Fabio Hernandez - 28/02/2008

O amor e o berro


Um poeta português disse que as cartas de amor são ridículas. Mas mais ridículo ainda é não escrever cartas de amor. Tenho um acréscimo à voz do poeta: algumas cartas de amor ultrapassam os limites do ridículo. São pomposas, verborrágicas, exageradas. A grande carta de amor é necessariamente simples e objetiva. Assim como a grande declaração de amor. A simplicidade é bela ao falar e ao escrever. Uma pessoa afetada na forma de se comunicar com as demais é afetada em outras esferas. “A verdade tem que falar uma linguagem simples, sem artifícios”, escreveu um filósofo. O amor também. Isto é, se for verdadeiro.

As virtudes da economia ao se expressar têm notáveis exemplos históricos. Conta-se que os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a uma esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês. Quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”. Num outro caso, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia